Quem tem filhos ou contato próximo com crianças já deve ter feito elogios após a realização de alguma tarefa solicitada ou depois de presenciar um bom comportamento. "Parabéns", "Estou feliz que tenha feito isso", "Que bom que você conseguiu" ou, ainda, "Não foi como esperado, mas vi que você se esforçou" são alguns exemplos de reforço positivo, ferramenta que visa estimular a repetição de determinadas ações.
Seja em casa ou na escola, o reforço positivo tem o objetivo de direcionar o comportamento infantil, de forma a auxiliar na educação. Ele acontece quando incentivos motivacionais são utilizados, seja pelos pais, responsáveis, familiares ou professores, após a criança apresentar bom desempenho em determinada tarefa, como na organização dos brinquedos, finalizar a lição de casa ou tirar boas notas, por exemplo.
A psicóloga Beatriz Melo, que tem atuação clínica no Centro de Atenção Psicossocial Infantil (Caps) de Caucaia, explica que o uso de reforço positivo possibilita que determinado comportamento estimulado ocorra novamente no futuro. "Se a criança fez algo bacana e é dado um feedback positivo para ela, é mais provável que ela venha a repetir esse mesmo comportamento, porque entende que foi algo bom", pontua.
Assim, a ferramenta funciona como uma bonificação verbal aos comportamentos infantis desejados. A sua importância está em permitir que a criança perceba quando determinada atitude foi certa ou errada, dentro do esperado, seja em casa ou na escola. "É uma ferramenta importante para que a criança perceba com mais clareza as perdas e os ganhos com o estímulo de suas ações", explica Beatriz.
Além de incentivar a repetição de determinados comportamentos, a especialista também pontua que o reforço positivo, quando utilizado após a criança obter êxito em alguma tarefa, desperta nela o sentimento de honradez pela atividade cumprida. "Esse feedback é uma ferramenta importante que pode e deve ser usada com constância, como uma realidade na vida dessa criança", esclarece a psicóloga.
Para além de direcionar o comportamento, o reforço positivo busca enxergar a criança em sua forma integral, com seus afetos, suas relações e sua identidade. A psicopedagoga e consultora do Núcleo Cearense de Estudos e Pesquisa Sobre a Criança (Nucepec), Ticiane Santiago, explica que a ferramenta é uma forma de entender o ciclo de desenvolvimento infantil por meio da oferta de estímulos verbais.
"A ideia do reforço positivo é oferecer estímulos, principalmente quando a criança mais precisa, não só quando ela tira uma nota boa ou quando ela acerta determinada atividade, mas mesmo quando ela erra ou encontra uma dificuldade, o que não implica em romantizar uma relação, ou premiá-la ou negligenciar as desigualdades, as contradições e as competições que a própria sociedade exige", pontua Ticiane.
A psicóloga Beatriz Melo pontua que os benefícios do reforço positivo são ainda melhores quando iniciados mais cedo na vida da criança. "Maiores serão as chances de torná-la um indivíduo com comportamentos e pensamentos mais funcionais. Caso essa não seja a realidade familiar da criança, não existe uma 'idade certa' para iniciar o reforço positivo. O importante é que seja feita essa iniciação", explica.
Ticiane também esclarece que a ferramenta implica em não somente afirmar as qualidades da criança ou em perceber os esforços dela para tentar acertar, mas em se oferecer para fazer junto com ela em determinados contextos, de forma a humanizar tais experiências. "É dizer: 'Eu entendo que você teve dificuldades nisso, mas vamos buscar o que a gente pode aprender com essa situação'", esclarece.
"O reforço positivo tenta criar, na relação entre pares, com a família e com os professores, contextos que sejam validados e orientados de forma estratégica para a construção de um sujeito com a saúde mental mais atualizada e mais potente, além de uma educação mais sensível (...) Quando a gente cria uma relação mais horizontal, é possível tirar lições e aprendizados de situações desafiadoras", explica Ticiane.
A psicopedagoga também esclarece que é importante não se utilizar frequentemente de adjetivos, sejam estes bons ou ruins. "Os adjetivos fecham a identidade da criança, fazendo com que ela não se sinta livre para experienciar toda a sua rede de emoções. É importante que os adultos também trabalhem com suas próprias emoções, para conseguirem nomear as emoções dos filhos", pontua.
A psicopedagoga Ticiane explica que crianças de zero a 3 anos entendem seu desenvolvimento por meio do sensório-motor, estágio que antecede a linguagem verbal. "Crianças bem pequenas aprendem pelo corpo, pelo afeto, pelo toque, pelo acalento, pelo olhar e expressam as emoções também através dessas formas. Então, eu vou criar atividades lúdicas e interativas onde elas se vejam como sujeito", pontua.
Como o reforço positivo não atinge sua finalidade principal nessa fase, a especialista recomenda que sejam criados mediadores concretos, como os exemplos do pote das emoções ou de filmes com histórias e personagens que permitam que a criança perceba seus sentimentos representados. O desenvolvimento nessa faixa etária também acontece a partir das relações as quais ela faz parte.
Já crianças entre 3 e 6 anos estão no estágio de desenvolver a "adolescência do bebê", segundo a psicopedagoga, momento em que elas vão questionar, fazer birra e perguntar. Nessa faixa etária, o reforço positivo já pode começar a ser introduzido por meio de estímulos verbais, mas contando com o auxílio de brincadeiras que já podem ter sido introduzidas na fase anterior, de zero a 3 anos.
"Uma dica importante para trabalhar com esse público é se utilizar de jogos, brincadeiras e práticas lúdicas, onde a criança não só entenda, como brinque, reelabore e construa. Brincar é uma necessidade humana fundamental, pois é por meio da brincadeira que são elaboradas experiências, são entendidas as dores, a realidade e a identidade", completa a especialista.
A psicopedagoga Ticiane explica que não existe um manual pronto que determine quais palavras, frases ou expressões devem ser usadas para a prática do reforço positivo com as crianças, seja em casa ou na escola. "É preciso ficar atento a todas as formas de linguagem e de comunicação, não só à palavra verbalizada, mas às posturas que envolvem essas palavras", pontua.
A especialista esclarece que, para além das palavras, as posturas que podem ser adotadas envolvem o tom de voz utilizado para conversar, o ato de abaixar à altura da criança quando for falar com ela, a forma em que é criado um elo de comunicação e a capacidade de enxergar a criança de forma ampla, para que o adulto possa ser entendido e para que a criança possa ser ouvida.
Apesar de não haver um roteiro, a psicóloga Beatriz explica que alguns exemplos de reforço positivo podem ser utilizados, como: “Você foi muito bem”, “Parabéns”, “Continue assim” ou “Estou feliz por você”. Ticiane também pontua que diferentes abordagens podem ser usadas: “Como você está se sentindo hoje?”, “Como a gente pode tentar fazer isso diferente?” ou “O que você aprendeu com essa situação?”.
Não reconhecer o esforço da criança em situações em que ficou claro que ela se esforçou, com palavras duras como resposta, pode gerar o reforço reverso. A psicóloga Beatriz explica que palavras negativas podem afetar a autoestima da criança e o desenvolvimento da autonomia para aquelas que estão na fase de adquirí-la.
"As possíveis consequências da ausência do reforço positivo ou do uso de palavras de negação podem gerar sujeitos com baixa autoestima ou sabotadores de si. Mas também é necessário que haja um equilíbrio saudável para que não exista uma cobrança excessiva dos pais ou dos responsáveis, ou ausência total desses estímulos, para a vida desse sujeito que está em constante evolução", explica Beatriz.
A psicopedagoga Ticiane também esclarece que palavras que começam e focam no negativo e que não enxergam a criança de forma integral, criando rótulos sobre ela, podem criar barreiras de comunicação infantil. "É importante entender o quanto a linguagem organiza pensamentos, constrói vínculos e identidade, abre espaço para a consciência e para a construção da conscientização", completa.