Com o advento da Semana Santa, hábitos e tradições são retomados por famílias. Um dos mais notórios o consumo do bacalhau, prato que orna as mesas durante o feriado e é tido como uma herança católica, já que fiéis são aconselhados a jejuarem e a não consumirem carne vermelha durante o período da Quaresma.
A prática de comer bacalhau remonta aos portugueses que cruzaram o oceano e povoaram o território brasileiro séculos atrás. Mas foi somente em 1808, com a instalação da Família Real lusitana no Rio de Janeiro, que o consumo da iguaria foi fomentada e expandida.
O apreço dos brasileiros pelo bacalhau se tornou tão forte que, em 1843, tem-se registro da primeira exportação oficial do peixe salgado da Noruega.
A professora Uiara Martins, doutora em Turismo com ênfase em gastronomia e instrutora do Senac, lembra que existem diferentes tipos de bacalhau. Além disso, prossegue, uma característica marcante do peixe é o seu sabor inconfundível, resultado do processo de salga em que é posto e das localidades em que é pescado — normalmente, as gélidas e cristalinas águas do Atlântico Norte.
“Existem, pelo menos, cinco tipos de bacalhau, com suas características e preços diferentes. Os mais conhecidos são os Gadus Morhua e Gadus Macrocephalus”, afirma.
Por ser importado, o produto acaba sendo comercializado por um preço elevado. “Esses peixes são pescados em águas geladas, como as da Groenlândia (e de outras localidades gélidas). Como não existe um consumo elevado desse produto no Ceará, o preço também acaba se elevando”, completa.
Quem estiver interessado em comprar bacalhau nesta Páscoa precisa ficar atento para não ser confundido na hora de escolher o produto. Muitos peixes que não são da espécie do bacalhau acabam passando pelo mesmo processo de salga, fazendo com que a sua textura e cheiro se assemelhem. Mas a principal diferença da iguaria típica para os demais, afirma Uiara, é a localidade onde são encontrados.
“O mercado adultera o produto, baixando o seu preço. Muita gente não tem conhecimento sobre isso e acaba comprando (erroneamente)”, adverte a professora.
Sobre o modo de preparo, a instrutora do Senac afirma que há um extenso cardápio de opções. Mesmo assim, a maneira mais comum de se servir a iguaria é aquela acompanhada de batatas regadas com azeite e alho. Uma dica elencada por ela é deixar o lombo do bacalhau de molho no leite por, pelo menos, 12 horas — “isso, aprendi com os portugueses”, aponta.
“Outro bacalhau muito conhecido é aquele com nata, servido normalmente com batatas fritas. Comumente, ele é finalizado com creme de leite e molho bechamel”, destaca Uiara.
1. Bacalhau Gadus Morhua
É considerado o mais nobre e mais saboroso bacalhau existente. É pescado nas águas gélidas do Atlântico Norte, principalmente na Noruega. Possui um corpo alongado, além de uma barriga levemente redonda. É o tipo mais caro encontrado no mercado.
2. Bacalhau Saithe
É caracterizado por uma coloração mais escura, tendo também um sabor mais forte. Normalmente, usa-se esse tipo de bacalhau para fazer bolinhos e pastéis. É a espécie mais popular e mais consumida no Brasil.
3. Bacalhau Gadus Macrocephalus
Assemelha-se bastante com o Gadus Morhua, mesmo sendo comercializado por um preço menor. Outra diferença observada é o lugar onde é pescado — enquanto o Morhua é encontrado no oceano Atlântico, o Macrocephalus é pescado no Pacífico Norte.
4. Bacalhau Ling
Por ser o mais estreito de todos os tipos comercializados, o bacalhau Ling é muito usado em saladas e em pratos cozidos. Tem uma carne branca e um sabor mais intenso.
5. Bacalhau Zarbo
De tamanho pequeno, a espécie Zarbo é consumida de forma muito semelhante à do Saithe. Suas lascas são usadas para que se façam bolinhos e tortas.
Fonte: Uiara Martins, doutora em Turismo com ênfase em gastronomia e instrutora do Sena
Uma das dúvidas suscitadas pelos católicos durante a Semana Santa diz respeito à obrigatoriedade de se consumir bacalhau durante o feriado. O padre Rafhael Silva, professor da Faculdade Católica de Fortaleza, esclarece que os fiéis não são obrigados a consumir essas espécies de peixe em específico no feriado. “Qualquer peixe, de água salgada ou doce, pode ser consumido nos dias de abstinência de carne de animais de sangue quente”, informa.
Frutos do mar, ovos e produtos laticínios, como o queijo, também podem ser ingeridos pelos católicos durante a Semana Santa e durante todas as sextas-feiras do ano, lembra o sacerdote. A medida sobre a abstinência de carne vermelha está em consonância com o cânone 1251 do Código de Direito Canônico da Igreja.
Durante o feriado, outros hábitos podem ser observados e respeitados pelos religiosos. “Muitas pessoas, por costume de devoção, não realizam trabalhos manuais, como varrer a casa. Muitos dedicam-se inteiramente à meditação da Paixão de Cristo. Fiéis também buscam o Sacramento da confissão e participam da celebração da Paixão e Morte do Senhor na Igreja”, aponta o padre.