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As prioridades de um negacionista

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Edifício-Sede do Banco Central em Brasília (Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil)
Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil Edifício-Sede do Banco Central em Brasília

PROJETO DE AUTONOMIA DO BANCO CENTRAL, aprovado na última semana pela Câmara dos Deputados, não é de todo ruim nem um bicho de sete cabeças. Há pontos positivos, como um mandato fixo para presidência e diretoria do banco, indicações intercaladas e interferência da Presidência da República apenas no terceiro ano de mandato.

A crítica mais comum, de ampliação de influência do mercado financeiro sobre o BC, também não parece fazer muito sentido: O mercado já possui influência avassaladora sobre o banco e a política monetária, com a criação de quarentenas para cargos no órgão (previstas no projeto, mas que poderiam ser muito maiores) ajudando a, na verdade, reduzir essa tendência.

Uma questão, no entanto, me parece crucial: É momento para votar tal proposta? Há alguma ressonância entre medida com tamanho impacto na vida da população e as atuais necessidades emergenciais dos brasileiros? Não sei se Guedes ou Bolsonaro estão cientes, mas há uma pandemia lá fora, que logo baterá a casa dos 250 mil mortos. Por que, então, o governo queima tempo e capital político discutindo autonomia do BC e PL de câmbio em vez de Auxílio Emergencial e recursos para a Saúde?

Na última quinta-feira, o Ministério da Saúde reduziu pedido de "resgate" de R$ 5,2 bilhões ao Ministério da Economia para R$ 2,8 bilhões. O recurso não é para comprar leite condensado, mas para abrir 11 mil leitos de UTI até março. Mesmo caindo para quase a metade, o pedido segue sem resposta da equipe econômica. A razão parece óbvia: Na agenda do Ministério da Economia, BC e dolarização são prioridades, a vida dos brasileiros, não.

Na última semana, o Brasil passou perto da margem diária de duas mil mortes por Covid em todos os dias. Neste ponto, parece evidente a necessidade de o País voltar a discutir ampliação de estrutura de atendimentos e quarentenas rígidas, algo que só é possível com a volta do Auxílio Emergencial e mais gastos na saúde. Paulo Guedes, no entanto, foge dos temas como o diabo foge da cruz. No final das contas, a política do ministro é tão negacionista e pouco preocupada com a vida quanto a de Bolsonaro.

 

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