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Lúcia Galvão, a jornalista que cultiva o sonho de ver toda a Cidade enfeitada por ipês

A preocupação com o futuro da humanidade fez com que Lúcia Galvão começasse a plantar mudas de árvores em casa. A partir de uma descoberta inesperada, o experimento brotou, e hoje os ipês ganham novas moradas
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Lúcia Galvão é jornalista, mãe de dois filhos e avó de dois netos. Doa mudas para a Prefeitura, que distribui à população (Foto: Aurelio Alves)
Foto: Aurelio Alves Lúcia Galvão é jornalista, mãe de dois filhos e avó de dois netos. Doa mudas para a Prefeitura, que distribui à população

Desde adolescente, Lúcia Galvão, "Lucinha" para os amigos, já sabia o que queria fazer na vida adulta. Queria passar mais tempo fazendo o que mais gostava: ler e escrever. Aos 71 anos, após uma carreira no jornalismo, dois filhos, dois netos e muitas histórias para contar, Lúcia começou a escrever uma nova história. Preocupada com o futuro não apenas dos seus, mas da humanidade, ela não ficou parada, decidiu plantar árvores.

Com a possibilidade de semear nas mãos e com o objetivo de incentivar a mudança, o varal de roupas de sua casa deu lugar às plantas, especialmente ipês. A cada novo broto, a alegria de cultivar um destino mais bonito foi aumentando. Em pouco tempo a plantação saiu do quintal e ganhou estrada rumo a novas moradas. O que começou com uma descoberta inesperada se tornou mais uma de suas habilidades.

Além de várias atividades que ainda fazem parte da sua rotina, a jornalista aposentada cultiva o sonho de ver a Cidade enfeitada por ipês, pessoas plantando árvores e compartilhando o hábito com seus próximos. Em meio a bordados e leituras, ela aguarda o resultado de seus plantios que logo estarão colorindo novos espaços.

O POVO - Como surgiu a ideia de plantar mudas de árvores?

Lúcia Galvão - Quando começou esse governo do Brasil e surgiu aquela história do desmatamento na Amazônia, aquilo ali me chocou demais, me doeu demais no coração. Pensei “que absurdo que estão fazendo”. Sempre ouvi dizer que o Amazonas era o pulmão do mundo. Depois teve o desmatamento no pantanal e o negócio banalizou. O que aconteceu foi que aqui em casa tem muita planta, vários tipos de ipês, e um dia limpando o jardim percebi que estavam caindo sementes na minha cabeça, no chão, então pensei: “Por que não plantar? Já que estão desmatando, a gente tem que plantar, para poder repor”. No fim do ano passado comecei a plantar as sementes de ipê. No que fui plantando, e elas começaram a germinar, era uma alegria enorme vê-las se transformando em planta. Então, eu me empolguei com a germinação dessas plantas, e elas começaram a crescer. Comecei a oferecer para os meus familiares e amigos, mas por causa da pandemia ninguém podia vir buscar, então eu busquei a Prefeitura de Fortaleza para fazer a doação das mudas. Uma equipe de técnicos veio à minha casa, e eu aprendi com eles a diferenciar os tipos de mudas de cada ipê.

OP - Qual o seu objetivo com a doação das mudas? A senhora pretende continuar?

Lúcia - Sim, vou continuar. Eu achei muito bom doar e principalmente incentivar as pessoas a plantarem. Há pouco tempo, eu vi uma notícia de que no ano 2100 nós vamos viver uma onda de calor insuportável aqui na zona dos trópicos, e faltam 80 anos, dá tempo plantar. A gente vai ficar esperando? Outra coisa que me incomoda é que a gente está usando máscaras, por causa dessa pandemia que, coincidência ou não, aconteceu na mesma época do desmatamento na Amazônia, e a gente se habituou com isso, sem respirar direito. Daqui a pouco vamos andar com tubos de oxigênio para respirar e achar natural, porque não tem mais árvores. Mas é uma coisa fácil de resolver, a natureza está aí despejando para nós, é só plantar. A natureza é rica, farta, abundante, as sementes voam no ar.

OP - Como a senhora se sente cultivando mudas para doação?

Lúcia - É uma alegria tão grande ver brotar uma semente e depois doar. É fácil e prazeroso plantar. Sossega o juízo da gente. A gente aprende que cada coisa tem seu tempo. Nós queremos tudo para ontem. Nós esperamos que as coisas caiam do céu, e elas caem. As sementes caem no chão, no colo, é só apanhar e plantar. Antes eu não identificava as sementes, mesmo tendo árvores em casa há um tempão. Aos poucos a gente vai adquirindo sensibilidade, vai descobrindo. Com a pandemia e aquela história de que os velhos iam morrer, eu pensei: “Antes de morrer eu vou plantar”. Pensei o que eu poderia fazer pelo mundo. Já pensou a Cidade toda enfeitada com ipês e jacarandás? É muito melhor do que ver lixo pelas ruas.

FORTALEZA, CE, BRASIL, 14-10.2021: Lúcia Galvão. Dois dedos de ProsaLúcia está cultivando mudas de árvores para doação. Já doou para amigos e familiares e para a Prefeitura de Fortaleza. em epoca de COVID-19. (Foto:Aurelio Alves/ Jornal O POVO)(Foto: Aurelio Alves)
Foto: Aurelio Alves FORTALEZA, CE, BRASIL, 14-10.2021: Lúcia Galvão. Dois dedos de ProsaLúcia está cultivando mudas de árvores para doação. Já doou para amigos e familiares e para a Prefeitura de Fortaleza. em epoca de COVID-19. (Foto:Aurelio Alves/ Jornal O POVO)

OP - O que a senhora diria para pessoas que pensam em começar a cuidar de plantas?

Lúcia - Qualquer pessoa pode plantar. É fácil. Primeiro pode descobrir uma semente que gosta e experimentar. Junto com a terra preparada, que já vende até em mercado, basta plantar em qualquer recipiente. Pode aproveitar copos descartáveis, bandejas dessas que vem vegetais, caixas de leite etc. Hoje, em casa mesmo também dá pra se informar sobre tudo pesquisando na internet. Não tem segredo. Vai fazendo e se não der certo tenta de novo.

 

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