Forças russas deixaram ontem a usina nuclear de Chernobyl e a cidade vizinha de Slavutich. Segundo a estatal de energia da Ucrânia, Energoatom, o motivo da partida seria o temor dos soldados com a radiação do local. A empresa confirmou que os russos construíram fortificações na chamada Floresta Vermelha - a parte mais contaminada ao redor da usina.
"As informações confirmam que os ocupantes, que tomaram Chernobyl e outras instalações na zona de exclusão, partiram rumo à fronteira ucraniana com Belarus", afirmou a empresa, em comunicado, acrescentando que um pequeno número de soldados russos permaneceu em Chernobyl.
Em uma mensagem online, a Energoatom disse que soldados russos haviam sido expostos a "doses significativas de radiação", com alguns mostrando sinais de doença. As autoridades russas não comentaram a retirada. No entanto, desde que ocuparam Chernobyl, Moscou sempre negou ter colocado em risco as instalações nucleares.
Um alto funcionário do Pentágono, que pediu anonimato, indicou que o Exército russo havia começado a se retirar do aeroporto de Gostomel, a noroeste de Kiev, e de Chernobyl, com destino a Belarus. Os americanos, no entanto, disseram que "não está claro" se soldados russos que estão deixando a usina foram expostos a altos níveis de radiação.
Desde o dia 9, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) deixou de receber dados de Chernobyl. A ausência de rodízio de funcionários da usina, desde o dia 20, causou preocupações com relação à segurança da instalação. Ontem, a AIEA afirmou que não tem como confirmar relatos de vazamento de material atômico e prometeu enviar nos próximos dias uma missão de assistência e apoio à central nuclear.
Invasão
O presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, afirmou ontem que as forças ucranianas aguardam novos ataques da Rússia em várias partes do país. De acordo com o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, as forças russas não estão se retirando, mas se reagrupando.
"De acordo com nossa inteligência, unidades russas não estão em retirada, mas em movimento de reposicionamento. A Rússia está tentando reagrupar e reforçar sua ofensiva na região de Donbas", alertou Stoltenberg.
A mudança, segundo análise de europeus e americanos, ocorreu após o fracasso da ofensiva a Kiev. Ontem, o vice-chefe de gabinete das forças terrestres da Ucrânia, Oleksandr Hruzevych, disse as forças russas ao redor da capital perderam sua capacidade ofensiva e estão mudando de tática para favorecer ataques de longo alcance, mais do que combates diretos. "O inimigo praticamente esgotou seu potencial ofensivo, mas as forças que permanecem em torno de Kiev não são pequenas."
Mesmo assim, muitos no Ocidente ainda estão céticos quanto uma possível retirada russa das imediações de Kiev. Desde quarta-feira, EUA e Europa vêm dizendo que Putin está recebendo informações erradas de seus generais sobre o desempenho de suas tropas, que especialistas consideram fraco.
Ontem, o Kremlin rejeitou as alegações de inteligência que sugerem que assessores tenham apresentado a Putin relatórios excessivamente otimistas do campo de batalha. O governo russo descreveu a informação como um "completo mal-entendido".
Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin, também minimizou a ideia de que um encontro entre Putin e o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, possa ocorrer em abril. "Nem o Departamento de Estado nem o Pentágono têm informações reais sobre o que está acontecendo na Rússia", disse Peskov. "Eles não entendem o presidente Putin, não entendem o mecanismo de tomada de decisão e não entendem os esforços do nosso trabalho."
Desastre
A diretora de comunicações da Casa Branca, Kate Bedingfield, afirmou ontem que os EUA têm evidências de que a guerra contra a Ucrânia foi "um desastre estratégico" para a Rússia. "O próprio Putin disse que essas sanções impuseram custos sem precedentes à economia russa, e nosso papel é continuar a fortalecer a Ucrânia no campo de batalha", disse Bedingfield. (COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS)