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Mourão debocha de investigação sobre tortura: ‘vai tirar do túmulo?’

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O vice-presidente da República, Hamilton Mourão (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil O vice-presidente da República, Hamilton Mourão

O vice-presidente Hamilton Mourão (Republicanos) reagiu ontem com ironia e risadas ao ser questionado sobre a possibilidade de se apurar crimes ocorridos durante a ditadura militar após a revelação de áudios de sessões do Superior Tribunal Militar (STM) com relatos de tortura no período. "Apurar o quê? Os caras já morreram tudo, pô. Vai trazer os caras do túmulo de volta?", disse o general da reserva ao chegar ao Palácio do Planalto.

Pré-candidato ao Senado pelo Rio Grande do Sul, o vice-presidente ainda disse que a história da ditadura tem "dois lados". "Houve excessos de parte a parte. Não vamos esquecer o tenente Alberto, da PM de SP, morto a coronhadas pelo (Carlos) Lamarca e os facínoras dele", afirmou Mourão, alinhado com a bandeira de revisionismo histórico defendida também pelo presidente Jair Bolsonaro (PL).

As mais de 10 mil horas de gravação foram analisadas pelo historiador Carlos Fico, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e pelo advogado e pesquisador Fernando Fernandes Os áudios foram revelados pela jornalista Miriam Leitão, do jornal O Globo, e confirmados pelo Estadão.

As gravações vão de 1975 a 1985. O acesso aos áudios levou duas décadas para ser liberado. Em 2006, Fernandes pediu a liberação do material, mas o STM negou. Cinco anos depois, a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a entrega das gravações, ordem que foi cumprida apenas em 2015, após o plenário do Supremo confirmar o voto de Cármen Lúcia.

Em um dos áudios, de junho de 1977, o general Rodrigo Octávio relata o aborto sofrido por Nádia Lúcia do Nascimento aos três meses de gravidez, após "castigos físicos". Na gravação, ele defende a apuração do caso. Em outro áudio revelado, um ministro afirma que uma confissão de roubo a banco foi obtida pela polícia depois que um preso político levou "marteladas".

‘Passado’

Na avaliação de Mourão, a tortura "é passado". "Isso é história, já passou. É a mesma coisa de voltar para a ditadura do Getúlio (Vargas). São assuntos já escritos em livros, debatidos intensamente. É passado. Faz parte da história do País", declarou o vice.

Mourão tem um histórico de declarações em defesa da ditadura militar. Em 1.º de março de 2018, na cerimônia para marcar sua passagem para a reserva, o general chamou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, condenado por sequestro e tortura, de "herói".

Procurado, o Exército afirmou que o Superior Tribunal Militar é um órgão do Poder Judiciário e que não vai se manifestar sobre os áudios. O Ministério da Defesa também não se pronunciou.

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