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"Minha conquista é fruto do movimento quilombola"
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"Minha conquista é fruto do movimento quilombola"

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O jovem Diogo Augusto Araújo, de 24 anos, divide em uma conquista os sentimentos de felicidade e indignação: ele é o primeiro remanescente de quilombo a se formar em Medicina pela Universidade Federal do Ceará (UFC). "É revoltante que tantos familiares meus e amigos não tenham essa mesma oportunidade porque precisam trabalhar desde cedo e não têm tempo para estudar", avalia.

Diogo nasceu na comunidade quilombola da Serra da Rajada, zona rural de Caucaia. Filho de uma professora de escola quilombola e um agricultor quilombola analfabeto, ele viu no estudo a oportunidade de romper amarras sociais. No Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), participou de olimpíadas científicas, pesquisas e do Núcleos de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas quando foi incentivado a tentar o curso na UFC. A Medicina, conta o jovem, não era um sonho, mas "uma ferramenta de ascensão social".

O POVO - Como o seu contexto social impactou na sua jornada acadêmica?

Diogo Augusto - Sempre me indignei muito com a injustiça social que me atravessava e atravessa tantos jovens como eu. Diante disso, busquei reafirmar minha identidade enquanto quilombola, mas é um processo difícil, pois as pessoas deslegitimam a nossa identidade. Até pessoas próximas já chegaram a zombar, ouvi falar que eu "era bonito pra ser quilombola", por ter traços considerados mais "finos". Diante dessa indignação, me engajei no movimento estudantil, no grêmio estudantil do IFCE-Caucaia e depois no Centro Acadêmico XII de Maio, do curso de Medicina, instituições que me fizeram aprender muito e que, sem elas, possivelmente não estaria onde estou hoje. (...) A verdade é que, pra mim, a Medicina nunca foi um grande sonho ou uma "missão humanitária". Mas era, sim, uma grande ferramenta para ajudar a população quilombola e, claro, de ascensão social para a minha família. (...) Ao longo dessa jornada de seis anos de graduação, pensei em desistir algumas vezes, me senti mal em alguns momentos por estar em um curso branco e elitizado. Não conseguia conceber que tinham pessoas ali que nunca pegaram um ônibus, quando eu andava de ônibus sozinho desde os 11 anos de idade para ir à escola. Mas persisti, encontrei grandes aliados, professores e amigos no caminho, buscando uma prática médica que fizesse sentido para o povo, aliando os conhecimentos tradicionais, aprendendo com as rezadeiras, pesquisando as plantas medicinais e me apaixonando especialmente pela saúde mental e saúde coletiva, áreas que almejo seguir.

O POVO - A que você atribui essa conquista?

Diogo Augusto - Eu me esforcei muito pra tudo isso. No terceiro ano do ensino médio, eu conciliava cursinho no Lourenço Filho, onde tinha bolsa de estudos e o terceiro ano na escola Cesar Cals. No início eu saia cedo de trem, andava mais de 2km para ir da estação para a escola, pois não tinha carteirinha de estudante e a passagem de ônibus era cara. Andei a faculdade inteira de ônibus e de Bicicletar, me alimentando no restaurante universitário, indo atrás de bolsas de pesquisa e extensão. Existe um mérito individual, mas não existe meritocracia. Não deveria ter sido tão difícil. Portanto, essa conquista é, sobretudo, fruto da minha família, dos meus amigos. Do movimento estudantil, do movimento quilombola. Sem isso, eu não conseguiria ter chegado onde cheguei.

O POVO - Qual a importância das políticas públicas quando falamos em acesso à universidade e também à permanência?

Diogo Augusto - Eu fui uma criança beneficiária do Bolsa Família. As políticas públicas de inclusão me salvaram. Fui bolsista de iniciação científica jr no IFCE. Entrei como cotista negro na Universidade. Fui beneficiário da política de assistência estudantil, fui bolsista do Programa de Educação Tutorial, de iniciação científica, do programa bolsa permanência para indígenas e quilombolas. O restaurante universitário garantiu segurança alimentar, pois eu não tinha dinheiro pra comprar comida todos os dias na universidade. Tudo isso foi fundamental pra que eu pudesse me tornar médico. Contudo, é preciso também denunciar. Ao longo desses anos, temos sofrido muito com cortes na assistência estudantil. Foram muitos os atrasos de bolsa, especialmente nos anos de 2021 e 2022. São muitos os colegas que precisam conciliar estudo e trabalho, porque a política é subfinanciada. Além disso, historicamente, a Universidade Federal do Ceará pouco tem feito para incluir os quilombolas. Para se ter ideia, o programa bolsa permanência para quilombolas só foi iniciado na UFC em 2022, mas existe desde 2013. Foram muitos os emails e reuniões que tive com a pró-reitoria de assuntos estudantis para que eles pudessem se cadastrar no sistema do MEC para podermos receber as bolsas. Além disso, diversas universidades, como a UFPA, a UFPel e a UFSC possuem há anos processos seletivos próprios para quilombolas, levando em consideração a ancestralidade e especificidade da população.

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