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"Não haverá enforcamentos hoje nem amanhã", afirma chanceler do Irã
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"Não haverá enforcamentos hoje nem amanhã", afirma chanceler do Irã

Trump mostrou-se ambíguo quanto à possibilidade de uma intervenção militar americana no país
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IRANIANOS comparecem aos funerais de membros das forças de segurança mortos em protestos (Foto: ATTA KENARE / AFP)
Foto: ATTA KENARE / AFP IRANIANOS comparecem aos funerais de membros das forças de segurança mortos em protestos

Trump afirma que 'massacre' no Irã 'cessou', mas mantém ambiguidade sobre intervenção

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, declarou ontem, 14, que não haverá execuções "nem hoje nem amanhã", apesar de promessas anteriores de Teerã de acelerar os julgamentos contra manifestantes antigovernamentais.

Em entrevista à emissora americana Fox News, Araghchi insistiu que, após dez dias de protestos contra o custo de vida no Irã, houve três dias de violência orquestrada por Israel, e que a calma já havia sido restabelecida.

"Tenho certeza de que não há nenhum plano para realizar enforcamentos", afirmou Araghchi.

Já o presidente dos EUA, Donald Trump, garantiu ontem que "o massacre no Irã está cessando", após dias de repressão às manifestações por parte das autoridades, mas mostrou-se ambíguo quanto à possibilidade de uma intervenção militar americana, ao afirmar que Washington está monitorando a situação.

As manifestações começaram como um protesto contra o custo de vida, mas se transformaram em um movimento contra o regime teocrático que governa o país desde a revolução de 1979 e que, desde 1989, é dirigido pelo líder supremo Ali Khamenei.

Grupos de defesa dos direitos humanos afirmam que, aproveitando um corte de internet de mais de cinco dias, as autoridades iranianas estão realizando a repressão mais severa em anos no país, que deixou ao menos 3.428 mortos, segundo uma ONG.

Durante um evento na Casa Branca, o presidente americano afirmou que lhe haviam comunicado "de boa fonte" que "o massacre no Irã está cessando, cessou". "E não há planos de execuções" de detidos, acrescentou Trump.

Quando um jornalista da reportagem perguntou se uma intervenção militar havia sido descartada, Trump respondeu: "Vamos observar e ver o que acontece depois".

Trump ameaçou em várias ocasiões ordenar uma operação militar na República Islâmica para conter a repressão ao movimento de protestos no país de 86 milhões de habitantes.

Segundo a ONG Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega, as forças de segurança iranianas mataram ao menos 3.428 manifestantes e detiveram mais de 10 mil pessoas. Ainda assim, a organização advertiu que o número real provavelmente seja muito maior.

Após o pico de concentrações registrado no fim da semana passada, as autoridades tentaram retomar o controle das ruas organizando uma "marcha de resistência nacional" e os funerais de mais de 100 integrantes das forças de segurança e outros "mártires" mortos nos protestos.

Em frente à Universidade de Teerã, milhares de pessoas se reuniram nesta quarta-feira para os funerais.

"¡Morte aos Estados Unidos!", diziam as faixas de alguns dos presentes, enquanto outros portavam fotos de Khamenei e bandeiras da República Islâmica, segundo um jornalista da AFP.

 

Embora o ministro Abbas Araghchi tenha dito que o Irã permanecia aberto à diplomacia, outros dirigentes endureceram o tom em relação aos Estados Unidos e a Israel.

O comandante da Guarda Revolucionária, Mohammad Pakpour, assegurou que suas forças estão preparadas "para responder com firmeza ao erro de julgamento do inimigo" e acusou Trump e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, de serem os "assassinos da juventude do Irã".

Diante dessas "tensões regionais", o Catar informou que a base americana de Al Udeid, a mais importante no Oriente Médio, foi parcialmente evacuada.

Teerã lançou mísseis contra essa base, situada 190 km ao sul do Irã, em junho de 2025, em resposta aos bombardeios de Washington contra instalações nucleares iranianas.

Em paralelo, o Reino Unido anunciou que "fechou temporariamente" sua embaixada em Teerã, e a Espanha instou seus cidadãos a deixarem o país.

Em Teerã, o Poder Judiciário prometeu processos "rápidos" e "públicos".

"Qualquer sociedade pode esperar que haja protestos, mas não toleraremos a violência", insistiu nesta quarta-feira à imprensa um alto funcionário iraniano, que sustentou que não foram registrados "distúrbios" desde segunda-feira.

Os países do G7 declararam-se nesta quarta-feira "profundamente alarmados com o elevado número de mortos e feridos relatado" e advertiram que imporão mais sanções caso a repressão não cesse.


— Sem internet —

Até o momento, as autoridades não divulgaram nenhum balanço oficial, e outro funcionário precisou que a identificação das vítimas ainda estava em andamento.

Antes das declarações de Trump, ativistas de direitos humanos haviam expressado preocupação com possíveis execuções sumárias.

Segundo a organização especializada em cibersegurança Netblocks, a internet já está cortada há 144 horas no país, o que dificulta o acesso à informação. A comunicação telefônica continua limitada.

Ainda assim, algumas informações acabam vazando.

Novos vídeos publicados nas redes sociais e verificados pela AFP mostram dezenas de corpos em um necrotério no sul de Teerã.

Diante da repressão e do corte das comunicações, parece que a intensidade dos protestos diminuiu drasticamente.

O Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), com sede nos Estados Unidos, afirmou que as autoridades estavam empregando "um nível de brutalidade sem precedentes para reprimir os protestos" e que os relatos sobre atividade de protesto na terça-feira se encontravam em "um nível relativamente baixo".

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