Os Estados Unidos advertiram a União Europeia (UE), nesta segunda-feira (19), que seria "insensato" impor tarifas de retaliação caso se concretizem as ameaças do presidente Donald Trump de aplicar encargos aos países europeus que rejeitam sua ambição de tomar a Groenlândia.
Trump afirmou, nesta segunda-feira, que o mundo não estará seguro a menos que os Estados Unidos controlem o território autônomo dinamarquês da Groenlândia, uma ideia rejeitada categoricamente por groenlandeses e europeus.
O líder republicano argumenta que "precisa" da maior ilha do mundo, rica em minerais e terras raras, para evitar que Rússia e China estabeleçam sua hegemonia no Ártico, e ameaça com tarifas oito países europeus que manifestaram sua firme oposição a esse plano expansionista e enviaram uma missão militar de exploração à ilha.
Entre eles estão Reino Unido, Alemanha, França — as maiores economias do continente — e países nórdicos como a Noruega. Essa disputa, que se intensificou na semana passada, provocou quedas nas principais bolsas europeias, já que a União Europeia prometeu dar uma resposta às ameaças de Trump.
- 'Acredito na Otan' -
Em Nuuk, capital da Groenlândia, Lea Olsen, estudante de 39 anos, disse não ter medo.
"A maior diferença entre nós, os groenlandeses, e os americanos é que podemos confiar em que nossos políticos farão tudo o que for possível não só por nosso país, mas também por seu povo. Confiamos em que nossos políticos vão administrá-lo muito bem", declarou.
"Não tenho medo porque acredito na Otan e acredito na Europa. Acredito que estamos unidos e que eles nos apoiam", disse Olsen.
Para refutar a afirmação do presidente americano de que "a Dinamarca não é capaz de proteger aquela terra da Rússia ou da China", o país escandinavo e a Groenlândia propuseram a criação de uma missão de vigilância da Otan na ilha ártica, declarou, nesta segunda, o ministro da Defesa dinamarquês, Troels Lund Poulsen, após uma reunião com o secretário-geral da Aliança Atlântica, Mark Rutte.
Antes desse anúncio, Trump escreveu, em uma mensagem enviada ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, que "o mundo não estará seguro a menos que tenhamos um Controle Total e Completo sobre a Groenlândia".
"Dado que seu país decidiu não me conceder o Prêmio Nobel da Paz por eu ter parado oito guerras ou mais, já não me sinto obrigado a pensar exclusivamente na paz", acrescentou, segundo a mensagem publicada em vários meios de comunicação.
Trump não evitou deixar transparecer sua indignação por não ter recebido no ano passado o prêmio, atribuído à líder da oposição venezuelana María Corina Machado.
O gabinete do primeiro-ministro norueguês confirmou a autenticidade da mensagem de Trump em um e-mail enviado à AFP, e Støre também lembrou que quem atribui o Nobel da Paz não é o governo norueugês, mas um comitê independente.
- Mecanismo 'bazuca' da UE -
Em Davos, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, alertou a União Europeia que seria "muito insensato" impor medidas de retaliação diante das ameaças tarifárias americanas.
Os dirigentes do bloco se reunirão na quinta-feira em Bruxelas em uma cúpula extraordinária para analisar a ameaça americana sobre a Groenlândia e a questão tarifária, indicou uma porta-voz do Conselho Europeu.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse ter insistido na "necessidade de respeitar inequivocamente" a soberania de Groenlândia e Dinamarca para uma delegação de congressistas americanos em Davos.
Em uma tentativa de impedir uma deterioração dos vínculos, o chefe de governo alemão Friedrich Merz tentará "se reunir com o presidente Trump na quarta-feira", durante o Fórum de Davos, para "evitar, na medida do possível, qualquer escalada" tarifária.
Nesse mesmo dia, a questão da Groenlândia será abordada pelos ministros das Finanças do G7, grupo de economias avançadas que inclui os Estados Unidos.
No fim de semana, Trump anunciou que, a partir de 1º de fevereiro, os países que enviaram militares à Groenlândia — Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia — estariam sujeitos a uma tarifa de 10% sobre todos os produtos enviados aos Estados Unidos.
Também no fim de semana, o presidente francês Emmanuel Macron assinalou que tem a intenção de solicitar a ativação do Instrumento Anticoerção da União Europeia.
Esse mecanismo, estabelecido em 2023, nunca foi ativado e é conhecido como uma opção de tipo "bazuca" ou "nuclear".
A ferramenta permite à União Europeia adotar medidas como restrições à importação e exportação de bens e serviços em seu mercado único de 450 milhões de habitantes.
Também lhe faculta limitar o acesso das empresas americanas aos contratos públicos na Europa.
O instrumento foi criado depois que a Lituânia acusou a China de proibir suas exportações porque Vilnius permitiu a abertura de uma representação diplomática taiwanesa em seu território em 2021.