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José Maria Florêncio: o maestro cearense que é referência na Europa
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José Maria Florêncio: o maestro cearense que é referência na Europa

De Fortaleza para os grandes palcos da Europa, José Maria Florêncio construiu uma trajetória de sucesso musical. Desde 1985 na Polônia, o maestro é hoje um dos principais nomes brasileiros na regência internacional
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Desde 1985 na Polônia, o regente José Maria Florêncio Júnior é hoje um dos nomes brasileiros mais atuantes na regência internacional (Foto: Piotr Markowski/divulgação)
Foto: Piotr Markowski/divulgação Desde 1985 na Polônia, o regente José Maria Florêncio Júnior é hoje um dos nomes brasileiros mais atuantes na regência internacional

Foi aos sete anos de idade que José Maria Florêncio Júnior percebeu não como um sonho, mas com uma certeza que queria ser maestro. Naquela manhã, ele acordou com essa convicção e sentiu que precisava começar a fazer algo para realizá-la. Assim deu seus primeiros passos na música a partir do Serviço Social da Indústria (Sesi), em Fortaleza. Aos 16 anos passou a integrar a orquestra sinfônica de Minas Gerais e alguns anos depois iniciou sua formação musical no Brasil com os estudos em regência na Universidade Federal de Minas Gerais.

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Ele passou por instituições internacionais para aperfeiçoar sua técnica. Pouco tempo após sua chegada à Polônia, Florêncio já despontava como maestro em salas de concerto e casas de ópera. Em conversa com O POVO, aos 63 anos, e habitante do país europeu desde 1985, o regente compartilha sua trajetória como professor e referência na música erudita que o levou a reger produções sinfônicas, de ópera, balé e música de câmara em turnês pela Europa, Américas e Ásia.

O POVO - Como começaram os estudos?

José Maria - Eu participava dos cursos do Sesi, que eram cursos de esportes. Sabia que lá também havia aulas de música. Fui sozinho, com 7 anos, me inscrever para aprender instrumentos de sopro na banda. Depois fui com meu irmão, minhas irmãs também se inscreveram e meus pais cantavam no coral à noite. Foi nesse contexto que começou o projeto do maestro Alberto Jaffé, no Sesi, o primeiro centro de ensino coletivo de instrumentos de cordas do mundo.

OP - E como surgiu a oportunidade de sair de Fortaleza?

José - Aos 16 anos, tivemos um curso com uma violinista suíça. Ela nos observou e disse, sem saber que éramos irmãos: "Vocês dois precisam ir embora. Já não podem ficar em Fortaleza". Disse que estávamos prontos até para iniciar um trabalho em uma orquestra profissional e nos indicou a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, na época a mais bem paga do país. Enviamos gravações, uma carta de recomendação, e fomos chamados para um período de experiência.

OP - Como foi essa mudança ainda jovem?

José - Eu e meu irmão saímos de Fortaleza de ônibus, numa viagem de vários dias. Em Belo Horizonte, passamos a receber um ótimo salário. Eu já havia feito um curso de regência em Fortaleza, aos 15 anos, com um compositor que foi professor de grandes nomes da música brasileira. Em Minas, continuei meus estudos na Universidade Federal de Minas Gerais e fiz cursos com os principais maestros do País.

OP - Quando a carreira internacional começou se tornou uma realidade?

José - Aos 22 anos, comecei a reger orquestras brasileiras. Regi a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, a de Porto Alegre, a da Bahia. Foi quando uma violinista polonesa da orquestra me disse: "Você precisa sair do Brasil". Fiz todo o processo para estudar na Polônia. Pedi demissão, usei o fundo de garantia, vendi minha viola e comprei uma passagem só de ida.

OP - Como foi chegada ao novo país?

José - Cheguei sem saber o que encontraria. Precisei aprender a língua do zero. Ao mesmo tempo, iniciei meus estudos de regência. Tive um professor fundamental, um grande regente com carreira mundial, que disse que eu já era um músico pronto e me ajudou a reger meu primeiro concerto na Europa. Depois desse concerto, tive um sucesso inimaginável.

OP - Quais diferenças você percebe entre trabalhar com orquestras no Brasil e no Exterior?

José - Cada país e cada cidade têm sua identidade. No Brasil, há orquestras de altíssimo nível, como a Osesp, comparáveis às melhores da Europa. Mas ainda existem desafios em relação à organização do trabalho, investimento, condições materiais e disciplina profissional. Na Europa, há uma tradição social e musical que cria condições ideais de trabalho. A orquestra não é uma ilha: ela reflete a sociedade em que está inserida.

OP - Atualmente, qual é a sua principal atuação?

José - Hoje atuo como maestro convidado, regendo orquestras na Polônia e fora do país. Meu posto permanente é como professor titular de regência sinfônico-operística na Academia de Música Paderewski. Em julho venho ao Brasil e depois sigo para a Argentina.

OP - Depois de quatro décadas no Exterior, como você resume essa trajetória?

José - É uma trajetória impressionante, quase um milagre. A música é mais do que uma profissão: é uma forma de educação e transformação. Eu estou no mundo para que ele seja um mundo melhor, mais culto e mais humano. A música é a linguagem que pode ajudar a transformar o mundo.

 

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