O Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) ofereceu denúncia contra 13 integrantes de duas alas rivais da facção Comando Vermelho (CV) que protagonizam uma "guerra civil" pelo controle do tráfico em São Gonçalo do Amarante e na região portuária do Pecém, no Ceará.
O POVO teve acesso ao relatório técnico, a acusação, baseada em investigação da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) e relatórios de inteligência. O material expõe um nível de sofisticação que transcende o comércio de drogas.
Segundo o documento, o grupo implementou o "cybercangaço", uma tática de terrorismo digital, e ainda utilizava o WhatsApp como ferramenta corporativa para extorquir grandes indústrias.
Um dos trechos da denúncia, detalhado no relatório técnico do MPCE, descreve a abordagem criminosa contra uma empresa de montagens.
As provas obtidas mostram que o denunciado Francisco César Costa de Oliveira, vulgo "Cambota", utilizou aplicativos de mensagem para contatar representantes da firma. Nas conversas, ele se apresentou formalmente como "liderança do Comando Vermelho em São Gonçalo do Amarante".
"Cambota" exigiu o pagamento de R$ 150.000,00 e dizia que o valor funcionava como uma "taxa de permissão" para que a indústria pudesse operar e para garantir a integridade física dos funcionários dentro do território dominado pela facção ("Tropa do R4/Venom").
O MP destaca que a extorsão migrou do pequeno comerciante para o setor industrial estruturado do Pecém. Durante a quebra do sigilo telefônico dos aparelhos apreendidos, a Polícia encontrou material probatório.
Em um dos trechos citados pela investigação, os criminosos ordenavam ataques a torres de provedores de internet para deixar a população incomunicável e dificultar o acionamento da Polícia.
Além do isolamento, o objetivo era forçar moradores a contratar apenas serviços de internet controlados ou taxados pela organização.
A denúncia narra que o "terror social" vivenciado na região é fruto de um racha interno ocorrido após outubro de 2024, com a morte do antigo líder, Hugo Ferreira de Sousa ("R10"). O vácuo de poder dividiu a facção em dois exércitos.
A tropa da Sede (R2) liderada por Francisco Antônio da Silva Moreira ("Biscuit"), que controla o centro, Taíba e Lagoinha e a tropa do Pecém (R4), liderada por Mateus Barroso Guimarães ("Venom"), que domina a área industrial e Sítios Novos.