Poucas vezes o Judiciário brasileiro viveu momento semelhante ao atual. Na abertura do Ano Judiciário de 2026, as instâncias estão sob holofotes desagradáveis, em contraste com 2025, quando o Terceiro Poder foi manchete ao redor do mundo com exemplo de democracia após condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado.
O presidente do STF, Edson Fachin, tomou posse há cinco meses, após o julgamento histórico, e ainda não teve a chance de ver um Supremo de águas calmas. Novas revelações da Polícia Federal sobre a relação entre o ministro Dias Toffoli, relator da investigação do Banco Master, e investigados de alto escalão do caso ampliaram a pressão sobre a Corte.
A redistribuição da relatoria do Caso Master (agora com André Mendonça) pode acalmar os ânimos internos da investigação, mas não inibe o impacto reputacional sobre o STF nem isentará Toffoli de futuros questionamentos.
A turbulência não se restringe ao STF. No Superior Tribunal de Justiça (STJ), o ministro Marco Aurélio Buzzi, de 68 anos, foi "afastado cautelarmente" do cargo pelo Pleno do Supremo após acusação de importunação sexual contra duas mulheres. "O afastamento é cautelar, temporário e excepcional", informou a instância.
Ainda se pode incluir nesse rol de acontecimentos, em menor grau, a decisão do TSE de rejeitar a alegação de que o samba-enredo em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) seria propaganda eleitoral antecipada das eleições de 2026.
Os ministros decidiram não interferir previamente no desfile, mas devem afiar o olhar para possíveis irregularidades no tributo, que samba em uma linha tênue.
Na mesma medida, o Judiciário deve esperar que o cidadão (e eleitor) brasileiro também afie o olhar para as decisões dos tribunais e dos bastidores. Porém, mais do que a resolução de processos específicos, está em jogo a construção e manutenção da confiança social nas instituições.