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Castillo declara vitória no Peru, mas Keiko contesta

| Apuração perto do fim | Fujimori chegou a diminuir diferença com votos do exterior, mas resultado em áreas mais remotas do País estão seguram leve vantagem do professor e sindicalista
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PARTIDÁRIOS de Fujimori e Castillo se manifestaram ontem nas ruas de Lima (Foto: ERNESTO BENAVIDES / AFP)
Foto: ERNESTO BENAVIDES / AFP PARTIDÁRIOS de Fujimori e Castillo se manifestaram ontem nas ruas de Lima

O candidato esquerdista Pedro Castillo se declarou ontem vencedor das eleições no Peru, embasado em contagens extraoficiais feitas por seus próprios auditores. Em discurso na sede do seu partido, o Peru Livre, ele afirmou que a vitória está assegurada. "O povo falou", disse Castillo, tirando seu chapéu e levantando os braços. "Obrigado por serem vigilantes da vontade popular."

Com 99% das atas contabilizadas, até o fechamento desta página, Castillo mantinha-se à frente de Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, por uma pequena margem - 75 mil votos ou 0,4 ponto porcentual (50,21% x 49,79%). 

Keiko e seu partido, o Força Popular, esperavam que os votos do exterior os ajudassem a encurtar a distância. Isso aconteceu parcialmente: a diferença em favor do candidato de Castillo, que na segunda-feira chegou a 95 mil votos, vem caindo.

Esta foto divulgada pela Presidência do Peru mostra o candidato presidencial peruano Pedro Castillo, votando em uma mesa de votação em sua cidade natal, Tacabamba, em Cajamarca, durante o segundo turno presidencial em 6 de junho de 2021, em que enfrenta o candidato de direita Keiko Fujimori. - Os peruanos enfrentam uma escolha polarizada entre a populista de direita Keiko Fujimori e o esquerdista radical Pedro Castillo quando elegem um novo presidente no domingo, em um país desesperado por um retorno à normalidade após anos de turbulência política. (Foto por Handout / Presidência Peruana / AFP)
Foto: AFP
Esta foto divulgada pela Presidência do Peru mostra o candidato presidencial peruano Pedro Castillo, votando em uma mesa de votação em sua cidade natal, Tacabamba, em Cajamarca, durante o segundo turno presidencial em 6 de junho de 2021, em que enfrenta o candidato de direita Keiko Fujimori. - Os peruanos enfrentam uma escolha polarizada entre a populista de direita Keiko Fujimori e o esquerdista radical Pedro Castillo quando elegem um novo presidente no domingo, em um país desesperado por um retorno à normalidade após anos de turbulência política. (Foto por Handout / Presidência Peruana / AFP)

Com 89,5% das urnas vindas de fora do país já apuradas, Keiko teve 66% dos votos de expatriados. Castillo, 34%. Tudo indica, porém, que a diferença não será suficiente para reverter o cenário. As atas vindas de áreas mais remotas do Peru, reduto eleitoral do professor e sindicalista, vêm mantendo a vantagem.

"De acordo com informações dos nossos auditores, já temos a contagem do partido. O povo se impôs, e agradecemos. Por isso, pedimos para que não caiam em provocações", disse Castillo, no início do seu discurso, com barulho de buzinas ao fundo, referindo-se às alegações de fraude.

Na segunda-feira, 7, Keiko disse que seria vítima de uma "fraude sistemática", sem apresentar evidências. De acordo com ela, seu adversário estaria manipulando as atas, o que poria em dúvida a credibilidade da eleição. Observadores internacionais, no entanto, dizem não haver sinais de irregularidades.

A candidata presidencial de direita peruana pelo Fuerza Popular, Keiko Fujimori, fala durante uma entrevista coletiva na sede de seu partido em Lima em 7 de junho de 2021. - A candidata presidencial de direita Keiko Fujimori na segunda-feira levantou alegações de "irregularidades" e "sinais de fraude "na eleição de domingo como seu rival, o sindicalista de extrema esquerda Pedro Castillo, assumiu uma liderança fina na contagem de votos. (Foto de Gian MASKO / AFP)
Foto: Gian MASKO / AFP
A candidata presidencial de direita peruana pelo Fuerza Popular, Keiko Fujimori, fala durante uma entrevista coletiva na sede de seu partido em Lima em 7 de junho de 2021. - A candidata presidencial de direita Keiko Fujimori na segunda-feira levantou alegações de "irregularidades" e "sinais de fraude "na eleição de domingo como seu rival, o sindicalista de extrema esquerda Pedro Castillo, assumiu uma liderança fina na contagem de votos. (Foto de Gian MASKO / AFP)

No mesmo dia, o chefe dos enviados da Organização dos Estaods Americanos (OEA), Rubén Ramírez, parabenizou as autoridades peruanas pela "organização de um processo de grande complexidade marcado pela pandemia e pela polarização".

Keiko, contudo, já solicitou na noite de ontem perante o tribunal eleitoral do Peru a anulação de cerca de 200 mil votos. O objetivo dos fujimoristas é anular as chamadas "atas contestadas", que contêm alguma irregularidade, como dados ilegíveis, rasuras e dúvidas sobre assinaturas.

Ontem, o Júri Especial Eleitoral (JEE), responsável pela análise em primeira instância, começou a julgar os milhares de votos impugnados, uma tarefa que deve durar dez dias, segundo a presidente do órgão, Alicia Margarita Gómez. A decisão final sobre a validade do voto é do Júri Nacional de Eleições (JNE).

O candidato presidencial de esquerda peruano Pedro Castillo, do Peru Libre, acena para apoiadores da sacada da sede de seu partido em Lima em 8 de junho de 2021, mantendo uma pequena vantagem na contagem final de votos com o candidato de direita Keiko Fujimori na Fuerza Popular após o segundo turno. 6 de junho - O Peru estava em perigo na terça-feira quando o populista de direita Keiko Fujimori gritou falta depois que o rival de extrema esquerda Pedro Castillo assumiu uma vantagem estreita na reta final da contagem de votos para decidir quem será o próximo presidente do país. (Foto de Gian MASKO / AFP)
Foto: Gian MASKO / AFP
O candidato presidencial de esquerda peruano Pedro Castillo, do Peru Libre, acena para apoiadores da sacada da sede de seu partido em Lima em 8 de junho de 2021, mantendo uma pequena vantagem na contagem final de votos com o candidato de direita Keiko Fujimori na Fuerza Popular após o segundo turno. 6 de junho - O Peru estava em perigo na terça-feira quando o populista de direita Keiko Fujimori gritou falta depois que o rival de extrema esquerda Pedro Castillo assumiu uma vantagem estreita na reta final da contagem de votos para decidir quem será o próximo presidente do país. (Foto de Gian MASKO / AFP)

Na terça-feira, o presidente do JNE, Jorge Luis Salas Arenas, afirmou que as revisões serão transmitidas ao vivo, para garantir um processo "independente e imparcial". Ele rejeitou as acusações de fraude, dizendo ser "muito perigoso" colocar em xeque toda uma eleição por conta de alguns incidentes.

Segundo especialistas, o número de pedidos de revisão não é muito diferente do registrado em votações anteriores, mas Keiko alega que a contestação, ocorrida especialmente em áreas onde ela teve mais votos, é uma estratégia de Castillo para "distorcer ou atrasar" os resultados oficiais. Segundo estimativas, cerca de 300 mil votos estariam sub judice.

Para que a vitória seja oficial, a autoridade eleitoral precisa contar todas as atas e o JNE finalizar a análise dos pedidos de impugnação. Se a eleição de Castillo for confirmada, será a terceira derrota consecutiva de Keiko no segundo turno - ela já perdeu para Ollanta Humala (2011) e Pedro Pablo Kuczynski (2016). 

A candidata de direita peruana à presidência do Fuerza Popular, Keiko Fujimori, fala durante uma entrevista coletiva na sede de seu partido em Lima em 9 de junho de 2021. - A candidata de direita do Peru Keiko Fujimori - logo atrás do esquerdista Pedro Castillo na votação presidencial do país - pediu às autoridades eleitorais na quarta-feira que anulassem os resultados de 802 assembleias de voto, o equivalente a 200.000 votos. (Foto de Luka GONZALES / AFP)
Foto: Luka GONZALES / AFP
A candidata de direita peruana à presidência do Fuerza Popular, Keiko Fujimori, fala durante uma entrevista coletiva na sede de seu partido em Lima em 9 de junho de 2021. - A candidata de direita do Peru Keiko Fujimori - logo atrás do esquerdista Pedro Castillo na votação presidencial do país - pediu às autoridades eleitorais na quarta-feira que anulassem os resultados de 802 assembleias de voto, o equivalente a 200.000 votos. (Foto de Luka GONZALES / AFP)

A cotação do dólar vem subindo nos últimos dias em razão da incerteza política em um país que teve quatro presidentes diferentes nos últimos cinco anos. Se eleito, Castillo prometeu rever o modelo econômico peruano, que facilitou o crescimento, mas aumentou as desigualdades.

Na segunda-feira, Castillo divulgou um comunicado voltado ao mercado, se comprometendo a manter a autonomia do Banco Central e ressaltando que seu plano econômico não inclui medidas como nacionalizações, expropriações e controle de câmbio. Na terça-feira, ele garantiu ter conversado com empresários, um dos setores mais críticos à sua candidatura.

"Acabo de conversar com o empresariado nacional, que está demonstrando apoio ao povo. Vamos criar um governo que respeite a democracia, a Constituição, com estabilidade financeira e econômica", afirmou o candidato, que há algumas semanas havia defendido uma ampla reforma constitucional no Peru.

Manifestações

PARTIDÁRIOS de Fujimori e Castillo se manifestaram ontem nas ruas de Lima
Foto: ERNESTO BENAVIDES / AFP
PARTIDÁRIOS de Fujimori e Castillo se manifestaram ontem nas ruas de Lima

Enquanto centenas de partidários de Castillo fizeram um "plantão" frente à sede do JNE no centro de Lima, milhares de seguidores de Fujimori se reuniram à tarde nesta quarta-feira para denunciar "fraude" no Campo de Marte, um grande parque da capital.

As eleições deixaram evidente que o país não tem apenas uma disputa política, mas também entre Lima e o interior do país, relegado por séculos e muito afetado pela recessão econômica provocada pela pandemia.

Na região andina de Cusco, a antiga capital do império inca, Castillo recebeu 83% dos votos, e em Puno, às margens do lago Titicaca, 89%. Nessas áreas predominam as populações quechua e aymara, respectivamente.

Apoiadores do candidato peruano pelo Partido Popular Fuerza, Keiko Fujimori, protestam em frente ao prédio do Organismo Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) em Lima, no dia 09 de junho de 2021. - O sindicalista de extrema esquerda Pedro Castillo se elegeu como vencedor da eleição presidencial do Peru, agradecendo as nações estrangeiras pelas mensagens de "vitória", mesmo com as autoridades eleitorais dizendo na quarta-feira que a disputa não havia terminado. Com mais de 98 por cento dos votos expressos na votação presidencial de domingo contados na manhã de quarta-feira, Castillo manteve a pontuação de liderança de 50,2 por cento sobre 49,7 por cento do rival populista de direita Keiko Fujimori. (Foto de Ernesto BENAVIDES / AFP)
Foto: Ernesto BENAVIDES / AFP
Apoiadores do candidato peruano pelo Partido Popular Fuerza, Keiko Fujimori, protestam em frente ao prédio do Organismo Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) em Lima, no dia 09 de junho de 2021. - O sindicalista de extrema esquerda Pedro Castillo se elegeu como vencedor da eleição presidencial do Peru, agradecendo as nações estrangeiras pelas mensagens de "vitória", mesmo com as autoridades eleitorais dizendo na quarta-feira que a disputa não havia terminado. Com mais de 98 por cento dos votos expressos na votação presidencial de domingo contados na manhã de quarta-feira, Castillo manteve a pontuação de liderança de 50,2 por cento sobre 49,7 por cento do rival populista de direita Keiko Fujimori. (Foto de Ernesto BENAVIDES / AFP)

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