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16 anos depois, era Merkel na Alemanha está próxima do fim

| Saída | Eleições no próximo domingo iniciam o processo de sucessão da chanceler que foi capaz de manter a coesão interna e projetar interesses nacionais no cenário europeu de forma pragmática
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ANGELA MERKEL vai deixar nos próximos dias o cargo de chanceler, ao qual ocupou durante os últimos 16 anos
 (Foto: Markus Schreiber / POOL / AFP)
Foto: Markus Schreiber / POOL / AFP ANGELA MERKEL vai deixar nos próximos dias o cargo de chanceler, ao qual ocupou durante os últimos 16 anos

Desde 2018 a Alemanha e o mundo foram alertados de que a chanceler Angela Merkel não disputaria um quinto mandato em 2021. Três anos se passaram, tempo suficiente para preparar alternativas a uma gestão que, após quase 16 anos, lidou bem com diversas crises como: a econômica global em 2008; os riscos de dissolução da União Europeia (UE); as ondas migratórias na Europa (2015) e a pandemia da Covid-19.

Entretanto, a menos de uma semana das eleições de 26 de setembro, paira um sentimento de estranheza ao perceber que a figura que serviu como fiel da balança em momentos críticos da UE na última década e meia está de saída.

Não que o adeus de Merkel signifique a fragilização da posição alemã no bloco. Maior economia e, junto da França, motor das decisões dos rumos do grupo, a Alemanha de Merkel terá um legado sólido que sobreviverá à despedida.

O presidente francês Emmanuel Macron (E) cumprimenta a chanceler alemã Angela Merkel quando ela chega antes de uma reunião e um jantar de trabalho no Palácio do Eliseu em Paris em 16 de setembro de 2021. (Foto de Ludovic MARIN / AFP)(Foto: Ludovic MARIN / AFP)
Foto: Ludovic MARIN / AFP O presidente francês Emmanuel Macron (E) cumprimenta a chanceler alemã Angela Merkel quando ela chega antes de uma reunião e um jantar de trabalho no Palácio do Eliseu em Paris em 16 de setembro de 2021. (Foto de Ludovic MARIN / AFP)

Internamente Angela Merkel cumpriu tarefas delicadas mesmo sem que seu partido tivesse a maioria no Bundestag (Parlamento alemão). A habilidade de adaptar as pautas de governo aos parceiros de coalizão foi uma característica clara em três dos seus quatro mandatos, nos quais seu partido, a União Democrata-Cristã (CDU), não obteve maioria parlamentar.

Isso permitiu que Merkel encabeçasse, ainda em 2011, a defesa da eliminação de usinas nucleares da Alemanha e tivesse força para sustentar mudanças no próprio estilo de governo, como fez ao decidiu acolher refugiados em 2015.

Tudo, é claro, com olhos à frente e pensando em alternativas à dependência energética e ao envelhecimento populacional. Este ano apenas seis centrais nucleares continuam ativas na Alemanha - contra 17 antes do anúncio de Merkel - e o país bate recordes no uso de energia renovável.

Enquanto outras potências mundiais viam seus presidentes e primeiros-ministros atuarem em verdadeiras danças das cadeiras, Merkel consolidou-se.

Desde que assumiu a posição de chanceler, em 2005, a França e os EUA já tiveram quatro presidentes cada e o Reino Unido cinco primeiros-ministros. De Jacques Chirac a Emmanuel Macron, de Tony Blair a Boris Johnson e de George W. Bush a Joe Biden, foi obrigatório relacionar-se com a Alemanha de Angela Merkel.

A influência internacional alemã também cresceu nos anos Merkel. Para o professor de Relações Internacionais da ESPM, Demetrius Pereira, isso está ligado à “habilidade (da chanceler) de unir direita e esquerda, com bom trânsito na política interna e externa”. Ele avalia ainda que Merkel alçou o bloco europeu a novos patamares.

“Talvez compensando uma certa falta de protagonismo da Alemanha (pós-segunda guerra) devido às sanções sofridas pelos atos de guerra, como a ausência de um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, não ter armas nucleares, etc. Ela se esforçou para colocar em cima da UE esse peso geopolítico diminuído na Alemanha”, diz.

Pereira avalia que o que está em xeque na eleição é o funcionamento da “balança delicada entre esquerda e direita” no país. “O que está à prova é a união nacional em torno de um líder. Já que há apoio da direita e da esquerda ao atual governo, provavelmente não haverá mudanças drásticas, mas a depender de quem ganhe, o equilíbrio pode se alterar”, projeta.

Em janeiro deste ano, o fim da era Merkel foi apontado como um dos dez principais riscos políticos em 2021 pelo grupo de consultoria Eurasia.

"Sem as habilidades políticas de Merkel, a UE teria enfrentado uma cisão interna sem precedentes, com Polônia e Hungria de um lado e os demais 25 estados-membros do outro. Também estavam em risco a unidade de França e Alemanha, com visões concorrentes sobre o futuro da Europa. A recuperação econômica do continente também ficaria em suspenso", diz a publicação.

A chanceler alemã, Angela Merkel, fala no Bundestag, a câmara baixa do parlamento alemão, em Berlim, em 7 de setembro de 2021. (Foto de John MACDOUGALL / AFP)(Foto: John MACDOUGALL / AFP)
Foto: John MACDOUGALL / AFP A chanceler alemã, Angela Merkel, fala no Bundestag, a câmara baixa do parlamento alemão, em Berlim, em 7 de setembro de 2021. (Foto de John MACDOUGALL / AFP)

Apesar do legado de Merkel em momentos críticos, o pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Geopolítica, Integração Regional e Sistema Mundial (GIS-UFRJ), Iago Caubi, destaca que a chanceler não foi aplaudida em todas as ocasiões.

“Ela é acusada por países mais endividados, como Grécia e Itália, de ter feito a Europa refém da política financeira alemã que impôs duras medidas fiscais. Também foi criticada pelos membros de seu partido e da direita por ‘ceder demais’ na política migracional”.

Caubi avalia ainda que foi durante o processo do Brexit, saída dos britânicos da UE, que Merkel alcançou o auge da popularidade pela “firmeza” nas negociações e destaca que Berlim assumiu postura pragmática, que lhe aproximou de nações como Rússia e China.

“A parceria estratégica com os russos e a intensificação de projetos energéticos que beneficiam ambos os países incomodam aliados como os EUA, mas Merkel soube lidar com a situação. Seu principal legado é a capacidade de manter a coesão interna e projetar interesses nacionais no cenário mundial, de forma pragmática e multilateral”, conclui.

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