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Alemanha inicia era pós-Merkel com governo inédito de três partidos

Líder dos sociais-democratas (SPD), Olaf Scholz deve assumir como chanceler no início de dezembro após acordo com os verdes e os liberais
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A chanceler alemã, Angela Merkel (E) recebe um buquê de flores do ministro das finanças alemão, vice-chanceler e candidato dos social-democratas (SPD) ao chanceler Olaf Scholz antes da reunião de gabinete na Chancelaria em Berlim, Alemanha, em 24 de novembro de 2021 (Foto: MARKUS SCHREIBER / POOL / AFP)
Foto: MARKUS SCHREIBER / POOL / AFP A chanceler alemã, Angela Merkel (E) recebe um buquê de flores do ministro das finanças alemão, vice-chanceler e candidato dos social-democratas (SPD) ao chanceler Olaf Scholz antes da reunião de gabinete na Chancelaria em Berlim, Alemanha, em 24 de novembro de 2021

O futuro chanceler alemão, o social-democrata Olaf Scholz, anunciou nesta quarta-feira, 24, um acordo para formar, junto aos verdes e os liberais, o primeiro governo pós-Merkel no país, que enfrenta uma grave crise pela pandemia de Covid-19.

Quase dois meses depois das eleições legislativas alemãs, marcadas por uma derrota histórica do campo conservador da chanceler, Olaf Scholz se prepara para sucedê-la no início de dezembro, com uma aliança inédita com os Verdes e os liberais do FDP.

(Da esquerda para a direita) O diretor-gerente político do partido verde alemão Michael Kellner, o co-líder do partido social-democrata alemão SPD, Norbert Walter-Borjans, os co-líderes do partido verde alemão Annalena Baerbock e Robert Habeck, o candidato dos social-democratas ao chanceler Olaf Scholz, o líder do Partido Democrático Livre (FDP) da Alemanha, Christian Lindner, o secretário-geral do Partido Democrático Livre (FDP) Volker Wissing, o co-líder do partido social-democrata alemão SPD Saskia Esken, o partido SPD Lars Klingbeil, chegam para uma foto de grupo em novembro 24 de 2021 no centro de Westhafen em Berlim, após uma sessão final de negociações de coalizão.(Foto: ODD ANDERSEN / AFP)
Foto: ODD ANDERSEN / AFP (Da esquerda para a direita) O diretor-gerente político do partido verde alemão Michael Kellner, o co-líder do partido social-democrata alemão SPD, Norbert Walter-Borjans, os co-líderes do partido verde alemão Annalena Baerbock e Robert Habeck, o candidato dos social-democratas ao chanceler Olaf Scholz, o líder do Partido Democrático Livre (FDP) da Alemanha, Christian Lindner, o secretário-geral do Partido Democrático Livre (FDP) Volker Wissing, o co-líder do partido social-democrata alemão SPD Saskia Esken, o partido SPD Lars Klingbeil, chegam para uma foto de grupo em novembro 24 de 2021 no centro de Westhafen em Berlim, após uma sessão final de negociações de coalizão.

Esses três partidos afirmaram que entraram em um acordo sobre um "contrato" de coalizão chamado "Atrever-se a mais progresso. Aliança para a liberdade, justiça e sustentabilidade", com grandes propostas ambientais, como adiantar o fim do uso do carvão para 2030, em vez de 2038.

"O SPD, os Verdes e o FDP entraram em um acordo para um contrato comum de coalizão nas negociações e sobre uma nova aliança de governo", disse Scholz, prometendo uma "coalizão de igual para igual". Essa combinação política nunca esteve no poder na Alemanha após a Segunda Guerra Mundial.

"Chanceler forte"

Olaf Scholz "será um chanceler forte", prometeu o líder do FDP, Christian Lindner. O futuro chefe de governo, de 63 anos e que ainda precisa ser empossado pelos deputados do Bundestag, prometeu que faria todo o possível para combater a nova onda de Covid-19 que abala o país, a pior desde o início da pandemia.

Entre as medidas anunciadas, uma quantia de 1 bilhão de euros que será destinada aos profissionais da saúde "particularmente exigidos" pela pandemia de Covid-19, disse Scholz. A Alemanha também precisa analisar uma possível extensão da obrigatoriedade das vacinas, em vigor no exército e em breve nos centros médicos.

O candidato dos social-democratas (SPD) para o chanceler Olaf Scholz sai após uma entrevista coletiva em 24 de novembro de 2021 no centro de Westhafen, em Berlim, para apresentar seu acordo para o governo pós-Merkel após uma sessão final de negociações de coalizão(Foto: ODD ANDERSEN / AFP)
Foto: ODD ANDERSEN / AFP O candidato dos social-democratas (SPD) para o chanceler Olaf Scholz sai após uma entrevista coletiva em 24 de novembro de 2021 no centro de Westhafen, em Berlim, para apresentar seu acordo para o governo pós-Merkel após uma sessão final de negociações de coalizão

A formação de um governo na Alemanha vai tranquilizar os países europeus, preocupados ao verem a Alemanha sem ninguém no comando em um momento em que a pandemia se agrava. Outra medida que a nova coalizão deseja implementar, segundo o acordo do governo, é a de legalizar a cannabis, cuja venda em "lojas autorizadas" será reservada ao consumo dos "adultos".

"Isso permitirá controlar a qualidade, impedir a circulação de substâncias contaminadas e garantir a proteção dos jovens", diz o acordo, detalhando que "o impacto social da lei" será avaliado dentro de quatro anos. Em 2017, a Alemanha autorizou o uso da cannabis para fins terapêuticos.

Além disso, o novo governo deseja retomar em 2023 as regras de rigor orçamentário, entre elas o freio ao endividamento inscrito na Constituição.

Uma mulher nas Relações Exteriores

Annalena Baerbock, co-líder dos Verdes da Alemanha e candidata de seu partido a Chanceler, participa de um debate eleitoral na TV em Berlim em 12 de setembro de 2021, antes das eleições gerais que ocorrem em 26 de setembro de 2021. (Foto de Michael Kappeler / POOL / AFP)(Foto: Michael Kappeler / POOL / AFP)
Foto: Michael Kappeler / POOL / AFP Annalena Baerbock, co-líder dos Verdes da Alemanha e candidata de seu partido a Chanceler, participa de um debate eleitoral na TV em Berlim em 12 de setembro de 2021, antes das eleições gerais que ocorrem em 26 de setembro de 2021. (Foto de Michael Kappeler / POOL / AFP)

Olaf Scholz já deu seus primeiros passos no cenário internacional ao acompanhar Angela Merkel na cúpula do G-20 no mês passado em Roma. Pela primeira vez em 16 anos, o SPD, que venceu com 25,7% dos votos das eleições legislativas, liderará novamente o governo da principal economia da Europa.

Resultado do compromisso entre os três partidos, o "contrato de coalizão" define todas as reformas econômicas, ambientais e políticas do próximo governo, cuja composição será revelada em breve. A candidata dos ambientalistas Annalena Baerbock, de 40 anos, deve estar à frente da diplomacia alemã, em um governo de paridade entre homens e mulheres, segundo a imprensa.

O ministério das Finanças, um dos mais importantes, iria para o líder do FDP, Christian Lindner, defensor da linha ortodoxa dos déficits públicos. O co-presidente dos Verdes, Robert Habeck, deve se encarregar do grande Ministério do Clima, em um momento crucial na luta contra a mudança climática e em um país que está entre os mais poluentes do mundo.

O líder do partido alemão Democratas Livres (FDP), Christian Lindner, faz um discurso durante uma reunião do partido em Berlim em 19 de setembro de 2021. (Foto de Tobias Schwarz / AFP)(Foto: Tobias Schwarz / AFP)
Foto: Tobias Schwarz / AFP O líder do partido alemão Democratas Livres (FDP), Christian Lindner, faz um discurso durante uma reunião do partido em Berlim em 19 de setembro de 2021. (Foto de Tobias Schwarz / AFP)

Olaf Scholz, o social-democrata austero que sucederá Merkel

Vice-chanceler e ministro das Finanças do atual governo, o social-democrata Olaf Scholz se prepara na Alemanha para substituir Angela Merkel e liderar uma coalizão sem precedentes de três partidos, graças à sua experiência e uma campanha sem erros.

Assim, abre-se o caminho para a sua eleição, na semana de 6 de dezembro, como chanceler da primeira economia europeia, após a inesperada volta do partido SPD, considerado morto até recentemente e que venceu por pouco as eleições legislativas de setembro.

Sem fazer muito barulho e inspirando-se no estilo sóbrio de Merkel, este amante das longas caminhadas conseguiu se destacar apesar de ser pouco conhecido pelos próprios alemães. Não há qualquer biografia do futuro chanceler, apesar de ter sido várias vezes ministro e também ex-prefeito de Hamburgo, a segunda maior cidade do país.

O candidato dos sociais-democratas (SPD) da Alemanha a chanceler e atual ministro das Finanças, Olaf Scholz, dá uma entrevista coletiva em Berlim em 11 de novembro de 2021.(Foto: TOBIAS SCHWARZ / AFP)
Foto: TOBIAS SCHWARZ / AFP O candidato dos sociais-democratas (SPD) da Alemanha a chanceler e atual ministro das Finanças, Olaf Scholz, dá uma entrevista coletiva em Berlim em 11 de novembro de 2021.

"Encarnação do tédio"

Sem fazer barulho e aproveitando os erros dos adversários, o homem que a revista Der Spiegel apresenta como "a encarnação do tédio na política" passou por todos os níveis da atividade pública desde os anos 1970.

Nascido em Osnabruck em 14 de junho de 1958, Olaf Scholz entrou para o SPD aos 17 anos. Então um jovem de cabelos compridos, flertava com as ideias mais à esquerda do partido. Ele se tornou advogado especialista em direito trabalhista e foi eleito deputado em 1998.

Como secretário-geral do SPD (2002-2004), Scholz teve que explicar todos os dias, diante das câmeras, as impopulares reformas liberais do então chanceler Gerhard Schröder.

Alvo de piadas por seu comportamento austero e discursos em tom de autômato que lhe valeram o apelido de "Scholzomat", - uma brincadeira com seu nome e a palavra “automat”, sugerindo que seria mais próximo de uma máquina do que de um ser humano - o agora futuro chanceler admitiu que "não é uma descrição totalmente falsa". Mas acrescentou: "Sempre me perguntaram as mesmas perguntas e dei as mesmas respostas."

Em 2004, a liberalização do mercado de trabalho dividiria a esquerda, precipitando a derrota de Schröder para Angela Merkel no no seguinte. Em 2007, ele foi nomeado ministro do Trabalho em uma grande coalizão governamental e, em 2011, se elegeu prefeito de Hamburgo. Lá, Scholz executou uma ambiciosa política de habitação e proteção à primeira infância, mesmo à custa de esgotar o orçamento da cidade.

Em 2018, substituiu como ministro das Finanças o democrata-cristão ortodoxo Wolfgang Schaüble. O ministro rompeu com o tom frequentemente rude e moralista de seu antecessor, especialmente aos países do sul da Europa considerados frágeis na economia.

Competência

Social-democrata de tendência centrista, Scholz parece ter convencido boa parte do eleitorado, apresentando uma imagem de competência. Em 2019, Scholz apresentou a candidatura para liderar o SPD, mas os militantes do partido escolheram dois quase desconhecidos mais à esquerda.

Scholz, no entanto, conseguiu recuperar espaço com a pandemia, quando não hesitou em romper com a ortodoxia orçamentária. O SPD então o nomeou como candidato às eleições legislativas de setembro de 2021.

Após uma década de acúmulo de excedentes, a Alemanha contraiu bilhões de euros em novas dívidas desde 2020, em detrimento de suas regras constitucionais rígidas. "Tudo isto é caro, mas não fazer nada seria ainda mais caro", insistiu Scholz, como ministro da Fazenda, para justificar as despesas em meio à pandemia de Covid-19.

Nas eleições de setembro, o SPD liderado por Scholz obteve uma vitória estreita, relegando os conservadores de Angela Merkel ao segundo lugar. Seu caminho para a Chancelaria estava livre.

 

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