Nicolás Maduro entrou nesta segunda-feira, 5, em um tribunal lotado de Nova York com uma postura confiante. Olhou para a galeria e fez uma saudação em espanhol, antes de afirmar ao juiz: "Não sou culpado."
Vestindo uma camisa sobre um uniforme de presidiário, Maduro afirmou que forças americanas o haviam sequestrado e que ele era um prisioneiro de guerra. "Sou um homem decente, continuo sendo o presidente do meu país", declarou. "Não sou culpado", acrescentou. Ele e a esposa são acusados de quatro crimes: narcoterrorismo, conspiração para o tráfico de cocaína, posse de armas e explosivos e conspiração para a posse de armas e explosivos.
Advogados, agentes e jornalistas lotaram a sala do tribunal federal de Manhattan. Maduro mostrava saber que os olhos e ouvidos do mundo estavam voltados para ele. O presidente deposto condenou a operação em Caracas na qual foi capturado com sua mulher por militares americanos. O juiz o interrompeu quando ele respondeu além do que lhe havia sido perguntado.
"Estou sequestrado aqui desde sábado. Fui capturado na minha casa", afirmou Maduro, 63. O juiz do caso, Alvin Hellerstein, explicou ao venezuelano que haveria o "momento e lugar" adequados para ele dar a sua versão dos fatos. A próxima audiência foi marcada para 17 de março. Até lá, o casal permanecerá preso em Nova York.
No fim da audiência, um homem da plateia gritou que Maduro pagaria por seus crimes. "Sou um prisioneiro de guerra", respondeu o venezuelano, antes de ser conduzido para fora da sala.
Maduro falou apenas em espanhol, e usou o tradutor para responder às perguntas do juiz, que recebeu de um intérprete as respostas em inglês. O presidente deposto fez anotações durante toda a audiência e quase não levantou os olhos da mesa. A mulher de Maduro, Cilia Flores, que estava vestida de forma semelhante ao marido, sentou-se ao seu lado, com um dos três advogados do casal entre eles.
A polícia conduziu Maduro e Cilia em um carro blindado da prisão do Brooklyn até o tribunal de Manhattan, cuja área foi isolada por agentes fortemente armados.
Dezenas de manifestantes se reuniram para comemorar ou criticar a prisão de Maduro, e foram separados pela polícia quando os ânimos se exaltaram. Um dos grupos, que agitava bandeiras venezuelanas e exibia cartazes com a frase "EUA, mãos fora da Venezuela", gritava: "Viva, Maduro!"
No outro grupo, a alegria reinava pela prisão de Maduro. "Hoje é meu aniversário, e este é o melhor presente que já recebi", disse o venezuelano Ángel Montero, 36, que vive nos Estados Unidos.
Na sede da ONU, também em Nova York, onde o Conselho de Segurança se reuniu, as atenções também se voltaram para a situação na Venezuela. O secretário-geral da organização, António Guterres, pediu respeito aos "princípios de soberania, independência política e integridade territorial dos Estados", em discurso lido pela subsecretária-geral, Rosemary DiCarlo.
A América Latina mostrou as suas divisões diante da crise. Houve espaço para apelos para o respeito da soberania nacional venezuelana por parte de uns e o apoio à operação militar de Washington, segundo outros.
"Estas ações recordam os piores momentos de interferências na política latino-americana do Caribe", declarou a representante colombiana, Leonor Zalabata Torres. A Colômbia ingressou no Conselho de Segurança em janeiro e solicitou uma reunião desta instância em caráter de urgência a pedido da Venezuela.
"Estamos aceitando que a lei e os interesses do mais forte prevaleçam sobre o multilateralismo", criticou a embaixadora colombiana.
O embaixador brasileiro, Sérgio Franca Danese, representante permanente do país na ONU, expressou termos semelhantes. "Estes atos constituem uma gravíssima afronta à soberania da Venezuela e estabelecem um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional", indicou.
"O Chile não reconhece o regime de Maduro, mas as graves violações de direitos humanos que a Venezuela enfrenta não têm uma solução militar", disse a embaixadora Paula Narváez.
O principal aliado de Trump na região, o presidente argentino, Javier Milei, mostrou-se favorável à intervenção militar por meio de seu embaixador nas Nações Unidas, Francisco Tropepi.
A Argentina "confia que estes acontecimentos representem um avanço decisivo contra o narcoterrorismo que afeta a região e, ao mesmo tempo, abram uma etapa que permita ao povo venezuelano recuperar plenamente a democracia", declarou.
Embora o Panamá tenha mantido um embate com o governo Trump em 2025 acerca do canal, o representante do país centro-americano, Eloy Álfaro de Alba, mostrou um ponto de vista muito mais crítico com Caracas do que com Washington.
O Panamá "deseja manifestar seu compromisso inabalável com a soberania dos Estados", iniciou seu embaixador. Mas "considera igualmente necessário destacar que a situação que a Venezuela atravessa se desenvolve em um ambiente marcado pelo desconhecimento da vontade de seu povo", acrescentou.
Delcy Rodríguez toma posse como presidente interina
Delcy Rodríguez foi empossada ontem como presidente interina da Venezuela. Rodríguez era a vice-presidente de Maduro e a primeira na linha de sucessão. É a primeira mulher a governar este país. "Venho com dor pelo sequestro de dois heróis que temos como reféns nos Estados Unidos", disse.
A Suprema Corte ordenou que Delcy Rodríguez assumisse o cargo por 90 dias, prorrogáveis. Seu irmão, o chefe do Parlamento, Jorge Rodríguez, presidiu o ato de posse. O filho de Maduro, também deputado, Nicolás Maduro Guerra, segurou a Constituição sobre a qual a presidente interina prestou juramento.
Militares prestaram honras à presidente interina ao final da cerimônia. A posse também foi o tema tratado pela Assembleia Nacional eleita em maio de 2025, que iniciou suas atividades nesta segunda-feira.
Maduro Guerra expressou seu "apoio incondicional" à presidente interina e também previu que "mais cedo ou mais tarde" seu pai e Flores "voltarão" à Venezuela.
"Conte comigo", disse o parlamentar a Rodríguez. "A pátria está em boas mãos, papai, e em breve vamos nos abraçar aqui na Venezuela", exclamou, aos prantos.
A maioria absoluta da Assembleia Nacional reelegeu Jorge Rodríguez como seu presidente. Um dia antes, a presidente interina o encarregou de buscar a libertação de Maduro e Flores.
"Minha função principal nos dias que virão (...) será recorrer a todos os procedimentos, a todas as tribunas e a todos os espaços para conseguir trazer de volta Nicolás Maduro Moros, meu irmão, meu presidente", disse em seu discurso.
A sessão começou com o grito de "Vamos, Nico!", um slogan repetido na campanha eleitoral de 2024 de Maduro, cuja reeleição foi rejeitada pela oposição e pelos Estados Unidos, entre outros países. (AFP)
Premiê da Groenlândia pede calma após ameaças de Trump
O primeiro-ministro da Groenlândia pediu nesta segunda-feira, 5, que não se ceda ao "pânico" depois que Donald Trump reafirmou sua intenção de colocar o território autônomo dinamarquês sob a bandeira americana.
"A situação não é tal que os Estados Unidos possam conquistar a Groenlândia. Não é o caso. Portanto, não devemos entrar em pânico", declarou Jens-Frederik Nielsen durante uma conferência de imprensa em Nuuk, a capital da Groenlândia.
No entanto, ressaltou que a partir de agora o seu governo "endurecerá o tom, porque não estamos satisfeitos com a situação na qual nos encontramos". "Já chega de uma comunicação feita através da mídia", alfinetou.
A intervenção militar de Washington na Venezuela reacendeu os temores em relação a esse território, que possui importantes recursos minerais ainda inexplorados.
Contudo, Nielsen disse que "a situação é muito diferente". "Nosso país não é comparável à Venezuela. Somos um país democrático", apontou.
Trump insistiu em seu desejo de anexar a Groenlândia no domingo, apesar dos apelos das autoridades da ilha e de Copenhague para que Washington respeite sua integridade territorial.
"Se os Estados Unidos decidirem atacar militarmente outro país da Otan, então tudo para. Inclusive a nossa Otan e a segurança implementada desde o fim da Segunda Guerra Mundial", declarou a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, à emissora TV2.
A chefe de governo, que considera que a situação é "séria", assegurou que está fazendo "tudo o que é possível" para evitar que isso aconteça. (AFP)