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Escalada de repressão no Irã agrava crise interna e atrai pressão internacional
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Escalada de repressão no Irã agrava crise interna e atrai pressão internacional

|Violência| A resposta do regime tem sido violenta e ONGs estimam milhares de mortos. Presidente dos EUA levantou a possibilidade de ação militar e disse que "a ajuda está a caminho"
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ATOS têm sido realizados em capitais. Na foto, uma mulher protesta contra o governo iraniano em frente à Embaixada do Irã em Londres (Foto: HENRY NICHOLLS / AFP)
Foto: HENRY NICHOLLS / AFP ATOS têm sido realizados em capitais. Na foto, uma mulher protesta contra o governo iraniano em frente à Embaixada do Irã em Londres

O presidente americano, Donald Trump, incentivou nesta terça-feira, 13, os manifestantes no Irã a manter o movimento e a derrubar as autoridades da República Islâmica, cuja repressão aos protestos já deixou pelo menos 734 mortos, segundo uma ONG. As autoridades iranianas insistem que estão retomando o controle após as sucessivas manifestações, que começaram há duas semanas.

Inicialmente, as marchas eram contra o custo de vida, mas se transformaram em um movimento contra o regime teocrático que governa o país desde a revolução de 1979 e que, desde 1989, é liderado pelo guia supremo Ali Khamenei.

No âmbito internacional, o tom endureceu. O alto comissário da Organização das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, declarou-se "horrorizado" com a repressão, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou que sanções serão propostas "rapidamente" em resposta ao número "aterrorizante" de mortos.

Vários países europeus, incluindo a Espanha, além da própria União Europeia, anunciaram durante o dia a convocação dos embaixadores iranianos nas suas capitais para protestar contra a repressão às manifestações.

A chefe da União Europeia, Ursula von der Leyen, classificou como “horroroso” o número de vítimas da repressão e adiantou que promoverá a adoção de sanções contra os responsáveis.

"Patriotas iranianos, MANTENHAM AS MANIFESTAÇÕES", escreveu Donald Trump em sua plataforma Truth Social. "Cancelei todas as reuniões com autoridades iranianas até que CESSEM este massacre sem sentido de manifestantes. A AJUDA ESTÁ A CAMINHO", afirmou.

Trump ameaçou em diversas ocasiões intervir militarmente e, em uma tentativa de intensificar a pressão, anunciou que imporá "imediatamente" tarifas de 25% aos parceiros comerciais da República Islâmica.

Embora a conexão telefônica internacional tenha sido restabelecida nesta terça-feira, os iranianos seguem sem acesso à internet desde 8 de janeiro, o que organizações de direitos humanos denunciam como uma tentativa de ocultar a magnitude do derramamento de sangue.

Trump ameaçou agir "de maneira muito firme" se as autoridades iranianas começarem a executar os manifestantes, depois que o Ministério Público de Teerã afirmou que serão apresentadas acusações por crimes capitais de "moharebeh" ("guerra contra Deus") contra alguns dos suspeitos detidos nos protestos. No passado, houve casos em que essas acusações levaram à pena de morte. 

A organização humanitária curdo-iraniana Hengaw afirmou que o manifestante Erfan Soltani, de 26 anos, deve ser executado hoje. Segundo a Fox News, Soltani será enforcado.

A ONG Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega, informou nesta terça-feira que verificou 734 mortes, incluindo a de nove menores, mas alertou que o número real de mortos pode ultrapassar 6.000. A ONG também informou que mais de 10.000 pessoas foram detidas.

A Human Rights Watch (HRW) acrescentou que existem "relatos confiáveis de que as forças de segurança estão realizando massacres em grande escala". Vídeos publicados em redes sociais e geolocalizados pela reportagem mostram corpos alinhados em uma mesquita, ao sul da capital.

Segundo a mídia estatal, dezenas de membros das forças de segurança morreram nos protestos. Seus funerais se transformaram em grandes manifestações a favor do governo, que declarou três dias de luto oficial.

O governo anunciou para quarta-feira um enorme funeral coletivo em Teerã para os "mártires".Na terça-feira, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, disse à Al Jazeera que o governo ordenou o bloqueio da internet depois de "se deparar com operações terroristas e perceber que as ordens vinham de fora do país".

Em relação às ameaças de Trump, ele acrescentou: "Estamos preparados para qualquer eventualidade e esperamos que Washington escolha uma opção sensata. Independentemente da opção escolhida, estamos preparados para ela".

 

 

Brasil diz acompanhar "com preocupação"

O governo brasileiro divulgou nesta terça-feira, 13, nota oficial em que afirma acompanhar com preocupação as manifestações no Irã.

No comunicado, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil lamenta as mortes e defende a soberania dos iranianos para decidir os rumos do país. "Ao sublinhar que cabe apenas aos iranianos decidir, de maneira soberana, sobre o futuro de seu país, o Brasil insta todos os atores a se engajarem em diálogo pacífico, substantivo e construtivo", diz a nota.

O governo brasileiro informa que, até o momento, não há registro de brasileiros entre mortos e feridos. A embaixada em Teerã está atendendo a comunidade brasileira no Irã. (AB)

Autoridades iranianas acusam EUA e Israel de interferência

Aos 86 anos, o aiatolá Khamenei enfrenta uma série de desafios, como a guerra de 12 dias com Israel em junho, desencadeada por um ataque maciço contra instalações militares e nucleares da República Islâmica.

Ainda assim, essas manifestações "representam o desafio mais grave à República Islâmica em anos, tanto por sua amplitude quanto por suas reivindicações políticas cada vez mais explícitas", afirmou à AFP Nicole Grajewski, professora do Centro de Estudos Internacionais da Sciences Po, em Paris.

Autoridades iranianas acusam os EUA e Israel de fomentar os protestos e ameaçaram atacar bases norte-americanas. O presidente do Irã Masoud Pezeshkian afirmou que protestos pacíficos são tolerados no país, mas que os distúrbios recentes são provocados por “terroristas do estrangeiro”, para justificar uma invasão pelos EUA e por Israel.

Os protestos começaram em 28 de dezembro em resposta ao aumento dos preços do custo de vida no país. Depois, os manifestantes se voltaram contra os governantes clericais que governam o Irã desde a Revolução Islâmica de 1979. A moeda rial do Irã perdeu quase metade de seu valor em relação ao dólar em 2025, com a inflação chegando a 42,5% em dezembro, em um país que enfrenta sanções dos Estados Unidos e ameaças de ataques israelenses.

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