Representantes da Rússia, da Ucrânia e dos Estados Unidos realizaram nesta sexta-feira, 23, em Abu Dhabi, uma primeira sessão de negociações diretas, depois que Moscou exigiu que Kiev retire suas tropas do leste ucraniano para pôr fim a quatro anos de conflito.
Em uma mensagem na rede X, o negociador ucraniano Rustem Umerov afirmou que as conversas se concentraram "nos parâmetros para pôr fim à guerra da Rússia e na continuação lógica do processo de negociação orientado a avançar rumo a uma paz digna e duradoura". Está previsto que as três delegações retomem o diálogo amanhã.
Trata-se das primeiras negociações diretas conhecidas entre Moscou e Kiev sobre o plano proposto por Washington para encerrar a guerra, que deixou dezenas de milhares de mortos desde 2022. "As Forças Armadas ucranianas devem abandonar o Donbass, devem se retirar. É uma condição muito importante", declarou o porta-voz da Presidência russa, Dmitri Peskov, antes do início das conversas.
"Sem uma solução para a questão territorial (...) não faz sentido esperar a conclusão de um acordo de longo prazo", acrescentou. A Rússia exige a retirada total das forças ucranianas do Donbass, um território industrial e de mineração do leste da Ucrânia que inclui as regiões administrativas de Donetsk e Lugansk e que é majoritariamente controlado por Moscou. O Kremlin concentra suas exigências em Donetsk, que controla parcialmente e que continua sendo o epicentro dos combates.
A reunião em Abu Dhabi ocorre um dia após dois encontros de alto nível: um em Davos entre o presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, e seu par americano, Donald Trump, e outro em Moscou entre o presidente russo, Vladimir Putin, e os enviados americanos Steve Witkoff e Jared Kushner.
O último ciclo de negociações diretas ocorreu em julho de 2025, em Istambul, mas somente a troca de prisioneiros e de corpos de soldados mortos foi acordada. "A questão do Donbass é central", disse Zelensky nesta sexta-feira. Ele acrescentou que o tema será discutido em Abu Dhabi.
Ontem, o presidente ucraniano afirmou ter conversado com a equipe negociadora enviada aos Emirados para tratar dos "temas" que devem ser abordados e dos "resultados desejados". Na quinta-feira, 22, Zelensky criticou seus aliados em um discurso no Fórum Econômico Mundial de Davos e descreveu uma Europa "fragmentada" e "perdida", incapaz de influenciar as posições de Trump e sem "vontade política" diante de Putin.
Em Davos, Zelensky manteve um breve encontro na quinta-feira com Trump, que classificou como "positivo", embora tenha reconhecido que o diálogo foi "complexo".
Ainda assim, afirmou ter alcançado um acordo sobre as garantias de segurança que os Estados Unidos devem oferecer à Ucrânia para dissuadir a Rússia de voltar a atacar uma vez que o conflito termine.
Nos últimos meses, Moscou intensificou os ataques contra a rede energética ucraniana, provocando apagões massivos de eletricidade e aquecimento, especialmente na capital, em pleno inverno. Na região de Donetsk, um bombardeio russo deixou quatro mortos na noite de quinta-feira, entre eles uma criança de cinco anos, e outro disparo russo matou três civis nesta sexta-feira na região de Kharkiv, no nordeste da Ucrânia, segundo as autoridades ucranianas.
"Trump quer criar nova ONU", diz Lula
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta sexta-feira, 23, que a política mundial atravessa um momento crítico, "com o multilateralismo sendo jogado fora pelo unilateralismo".
Durante o encerramento do 14º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Salvador, Lula disse que a carta da Organização das Nações Unidas (ONU) está sendo rasgada e criticou a proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de criação de um Conselho de Paz. Para o presidente brasileiro, Trump quer criar uma nova ONU para ser o dono.
"Está prevalecendo a lei do mais forte, a carta da ONU está sendo rasgada e, em vez de a gente corrigir a ONU, que a gente reivindica desde que fui presidente em 2003, reforma da ONU com entrada de novos países [como membros permanentes no Conselho de Segurança], com a entrada de México, do Brasil, de países africanos… E o que está acontecendo: o presidente Trump está fazendo uma proposta de criar uma nova ONU, em que ele sozinho é o dono da ONU", afirmou Lula.
Lula disse ainda que está telefonando para vários líderes mundiais para discutir o tema, entre eles o presidente da China, Xi Jinping, e o da Rússia, Vladimir Putin.
"Estou conversando para fazer com que seja possível a gente encontrar uma forma de se reunir e não permitir que o multilateralismo seja jogado para o chão", pontuou. (AFP)