Opinião

Sofia Lerche Vieira: "Os outros donos do poder"

Em minha experiência como secretária da Educação de Aracati, pude perceber a força desses pequenos interesses
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Em Os donos do poder, Raymundo Faoro constrói um magistral retrato das origens de um dos maiores males da sociedade brasileira – o clientelismo. As ideias desse clássico da literatura da Ciência Política permanecem atuais e contribuem para aguçar a compreensão deste combalido país de tantos desmandos e descompromisso com a esfera pública.

 

Por maior que seja a expectativa de fazer diferente, a forte presença deste elemento do conservadorismo é ainda arraigada no âmbito municipal. De uma maneira geral, os pequenos interesses perpassam o cotidiano da vida no território. Terminadas as eleições, a partilha começa e se prolonga pelo curso da nova gestão. O curioso é que não são apenas os tradicionais donos do poder político, as famílias e grupos mais abastados, que estão em busca de favores para seus afilhados. Há, de fato, outros donos. O clientelismo aflora tanto entre políticos próximos do(s) partido(s) vencedor(es) quanto entre os representantes do aparentemente interminável séquito de cabos eleitorais que se dizem amigos de infância ou parentes do prefeito.


Em minha breve experiência como secretária da Educação de Aracati, pude perceber com clareza a força desses pequenos interesses. Bilhetinhos chegavam às minhas mãos por vias e circunstâncias as mais diversas. Umas, com mais formalidade, a exemplo de currículos sorrateiramente apresentados depois de audiências; outras, de forma acintosa, como quando fui surpreendida pelo servidor de um órgão público da cidade que, em afã de caça às bruxas, insistiu em indicar nomes que, a seu juízo, deveriam ser afastados de uma dada escola.


Vigias, merendeiras, professores, diretores e tantos outros que compõem a força de trabalho da área são o alvo preferencial de barganha. Mas, em verdade, tudo é objeto de negociação na dança das cadeiras e dos interesses reinantes no poder local. A educação, pelo elevado percentual de recursos aplicados em pessoal, transporte, merenda, livro didático, manutenção de rede física e outros serviços, é alvo preferencial dessas investidas. É o botim, do qual todos querem um quinhão. Assim, não é demais repetir algo já dito em artigo anterior: se no município estão os problemas; estão também as soluções. A permanência do clientelismo é um ônus excessivamente pesado, constituindo obstáculo ao imperativo de renovação das práticas de gestão pública e melhoria efetiva dos serviços prestados ao cidadão.

 

Sofia Lerche Vieira

sofialerche@gmail.com

Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece. Pesquisadora do CNPq

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