Opinião

Professores, sejam anarquistas

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Ensinar não é mesmo para todo mundo. O senso comum (dos alunos) explica isto fácil. Diz-se que fulano sabe muito, mas não sabe transmitir. Ou ainda que beltrano é carrasco, mas é melhor do que o sicrano bonzinho. Noutros termos, os estudantes reconhecem os perfis e aprendem a lidar com cada um. Seja respeitando e admirando, seja enfrentando, seja desistindo.


Como em qualquer relação, o respeito é uma construção. Já fiz parte de uma turma de pós-graduação que se reuniu e pediu à coordenação que mudasse o professor porque o sujeito era inábil demais no trato. Já fui professor em uma universidade e tive de aprender no dia a dia a dosar a mão para não perder o tato. No começo, descobri que tinha até uma alcunha diabólica. No final, ficou a saudade mútua. Os ex-alunos hoje são colegas.
 

No dizer de Rubem Alves, pensar é voar sobre o que não se sabe e não existe nada mais fatal para o pensamento do que o ensino das respostas certas. Ou ainda: as escolas existem para ensinar as perguntas, não as respostas. No jornalismo, ensinar como a roda gira no sistema e como há vida fora dele. Em suma, como contar histórias bem e jamais ser ingênuo – a pior ofensa contra um jornalista.
 

Compreender a razão de ser da profissão é a chave para não fazer da sala uma plateia para convicções pessoais, no mais das vezes desonestas, como satanizar o mercado, aquele ambiente com o qual, de um jeito ou de outro, terão de lidar. Descendo alguns degraus, vem a imagem daquele professor de uma escola pública de Fortaleza. Aos berros, agride um aluno que teria proferido algo, ao juízo dele, “errado”. Dispara contra as supostas fontes do rapaz – “policial imbecil” ou “pastorzinho vagabundo da sua igreja”. Humilha perante a turma. Nas explicações que deu a posteriori admitiu ter agido de modo estabanado e descabido. Não soube de mea culpa da Secretaria da Educação.
 

O grotesco caso em questão abriu a quadra para que os defensores da censura se manifestassem. Menos. Não se pode conceber nenhuma tentativa de pasteurizar a sala de aula. Pregar index do que pode e do que não pode é coisa de censor. Este é um erro do movimento Escola sem Partido. No mais, cumpre uma função fundamental. Suscita o debate. Quem já viu uma aula de Demétrio Magnoli para estudantes do ensino médio sabe o que significa tratar dos temas sem tecer panfletos, a despeito das opiniões pessoais.
 

Comparando, o papel da Escola sem Partido é importante tal qual os MBLs da vida e outras manifestações afins, antitéticas da outrora opinião única. Carrega erros copiados de quem ataca, mas cria um novo polo. Daí o profundo incômodo que causam. Todo quadro negro é todo negro de saber o quanto é hegemônico nas salas de aula deste Brasil varonil o mesmo pensamento à esquerda, que mais deforma do que forma. Como deformaria caso fosse à direita. Nas provas de disciplinas de humanidades, isto é visível. Do colégio ao Enem. Experimente fazer uma sem estudar. Apenas siga o viés. Um professor não pode ignorar fatos em nome do proselitismo ideológico. Mas fazem isso aos borbotões. Hoje, com saudável resistência. Antes, nem isso. Em entrevista que foi ao ar ontem na TV, Jô Soares disse que a grandeza de um artista é ser anarquista. “Não tem que ter filiação partidária.” Pensando bem, professores, sejam anarquistas.

 

Jocélio Leal
leal@opovo.com.br
Jornalista do O POVO

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