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Jornalista, é mestra em Estudos da Tradução (UFC), especialista em Tradução (Uece) e pós- graduada em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais (Estácio FIC). No O POVO, já atuou como ombudsman, editora de Opinião, de Capa e de Economia, além de ter sido repórter de várias editorias.

Daniela Nogueira linguagem e comunicação

O jornalismo em #SOSAmapá e #EleiçõesnosEUA

Tipo Opinião

O estado do Amapá amanheceu, na quarta-feira da semana que passou, na lista dos termos mais comentados nas redes sociais. Isso ocorreu por causa da interrupção do fornecimento de energia elétrica provocada por um incêndio em transformadores de subestação da área. De acordo com as autoridades, um transformador pegou fogo por volta das 21 horas de terça-feira. Até a sexta-feira à noite, o apagão continuava em 13 cidades do estado da Região Norte.

Além da falta de energia, que causa prejuízos imensuráveis em todos os estabelecimentos de comércio, de saúde e de consumo, para citar alguns, as cidades enfrentavam falta de água e acesso restrito à internet. Estamos falando de cerca de 750 mil pessoas privadas de água, de luz, em filas nos supermercados de prateleiras já vazias, com racionamento de comida, sob limitação de acesso à internet. Um caos.

E como isso foi e tem sido noticiado pela imprensa Brasil adentro? Quem tem parentes ou conhecidos que moram na região ficou sabendo logo das notícias por esse caminho. Ademais, as redes sociais - logo elas, por vezes tão tóxicas - trataram de pautar uma agenda urgente para o momento.

O chamado de atenção para o problema foi um pedido de socorro. "Estamos há três dias sem água, energia elétrica, ficando sem mantimentos e os hospitais estão entrando em colapso. Tudo isso em meio a uma pandemia. Acorda, Brasil. O Amapá pede socorro" (sic), escreveu uma leitora em um portal de notícias na quinta-feira.

Mediadora

Outro leitor, morador da região, comparou com o destaque dado às eleições norte-americanas: "Agora que o Biden ganhou, dá para todo mundo se voltar pro Amapá? Falem sobre isso, sobre nós!!!" (sic)

Uma leitora, moradora de Macapá (AP), especulou como seria noticiado o caso se a situação desorganizada houvesse ocorrido em outro estado brasileiro. "A dor do Amapá é dor que não sai em manchetes de jornal. Se fosse em outro estado, o Brasil inteiro estaria mobilizado, jornais de plantão, notícias a toda hora, fala do presidente, empresários ajudando. É bonito falar em defender a Amazônia, mas quem liga pro seu povo?" (sic), anotou.

Desde quarta-feira, alguns veículos jornalísticos começaram a publicar informações sobre a situação. De forma tímida, no entanto. Só ganhou força na sexta-feira quando alguém parece ter percebido que havia algo estranho em mobilizar tanto foco na contagem dos votos da Georgia e não haver uma reportagem profunda em um estado brasileiro há 60 horas sem luz.

O assunto que dominou a semana na imprensa brasileira foi as eleições nos Estados Unidos. Relevante, oportuno e necessário. Entender como tem se comportado o eleitor do lado de lá, sob um governo que parece inspirar a gestão brasileira, é imperativo para nos fazer traçar perspectivas e analisar o cenário brasileiro.

A rústica contagem dos votos nos Estados Unidos, o discurso de Trump e Biden, as denúncias de possíveis fraudes e o apoio aos candidatos foram temas constantes na imprensa do lado de cá. No O POVO, o assunto esteve em destaque frequentemente no portal e nas redes sociais.

É verdade que, numa semana com pesquisas eleitorais de Fortaleza sendo divulgadas, o jornal se esforça para aproximar o leitor do tema eleição norte-americana, mostrando como isso interfere nas relações com o governo brasileiro. É interessante que essa aproximação ocorra, porque o público precisa, claro, ser informado. Mais do que isso, porém, precisa entender por que aquilo é noticiado, qual é a relação dele com o assunto.

Ora, os Estados Unidos são a maior potência econômica mundial, alguns podem alegar. E isso já seria motivo suficiente para toda essa expectativa em torno das eleições. É compreensível a necessidade que temos de entender o pleito ianque e de acompanhar os desdobramentos com vigilância.

Inevitável também é saber o transtorno por que passam milhares de brasileiros, a alguns estados de distância de nós. Ainda é sofrível ficar a escrutinar como seria o tratamento da imprensa se a situação se desse em estados do eixo econômico brasileiro, nas principais metrópoles.

Se os governos tratam de modo diferenciado os povos sob o critério da localização, é responsabilidade da imprensa ser voz da cobrança de responsabilidades, ser mediadora dos conflitos, ser instrumento para ecoar o socorro.

É preciso lembrar para não esquecer: o jornalista não é mero produtor de notícias. É um agente comprometido com a responsabilidade social.

 

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