O sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), em sua obra Modernidade Líquida, comentou acerca do consumo na pós modernidade. A frase iluminista "penso logo existo" foi adaptada para "compro logo existo". Era um olhar mais acurado sobre uma das dimensões da condição humana.
De fato, buscamos prosperar em boa parte das nossas ações ao longo da vida. Queremos menos frustações e mais sucesso. Menos esforço e mais recompensa. Nesse diapasão vem o consumo. É inerente ao nosso modo de vida dispensarmos recursos, financeiros ou não, para consumir. Mas o que dizer sobre o "consumo pandêmico"? É irracional multidões irem às compras, compulsivamente, no cenário precário de um vírus ainda em análise?
Há tempos a fronteira do necessário não corresponde à voracidade do desejo de consumir. O espectro luminoso das várias opções de produtos alterou nossa percepção da realidade. Daí não ser possível parar a economia. Parar e refletir é pedir demais para um mundo que se divide em cientificistas e ideólogos. É loucura aglomerar para comprar em espaços cada vez menores, ou mesmo comprar pela internet sem saber o futuro do trabalho? Deixamos de lado o bom senso e passamos a idolatrar nossos instintos, excluindo o da sobrevivência?
Prefiro crer que na realidade certas "loucuras" também são parte da nossa racionalidade. São o que nos impulsionam para realizarmos feitos incríveis. Lembro que a história está repleta deles. O tempo se encarregou de mudar, por exemplo, a trajetória das biografias de Galileu Galilei e Nikola Tesla. O tempo não encolheu, apesar da recalcitrante sensação que temos. Por isso podemos continuar otimistas no surgimento de uma solução perene. Finalizo com essa frase do poeta Fernando Pessoa: "Sem a loucura que é o homem/ Mais que uma besta sadia, / Cadáver adiado que procria?"
Davi Azin