Opinião

Cristina Zahar: Quando a imprensa é o inimigo número 1

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Imagine um país em que o presidente elegeu a imprensa como o inimigo número 1. Ataca veículos, achincalha jornalistas durante entrevistas, espalha desinformação e ainda classifica de "fake news" qualquer notícia que lhe seja desfavorável.

Pensou em Donald Trump, Rodrigo Duterte (Filipinas), Viktor Orbán (Hungria), Nicolás Maduro (Venezuela) ou Daniel Ortega (Nicarágua)? Acertou, mas faltou incluir na lista o nome de Jair Bolsonaro.

O chefe do Executivo brasileiro não se acanha em esgarçar o tecido democrático e colocar em risco a liberdade de imprensa, direito garantido pela Constituição.

Suas mais recentes ofensas foram proferidas, não à toa, contra jornalistas mulheres. Na semana passada, as vítimas foram Laurene Santos (TV Vanguarda); Adriana de Luca (CNN Brasil); e Victoria Abel (CBN).

Mandar calar a boca e xingar as repórteres faz parte do repertório machista e misógino de Bolsonaro com a clara intenção de intimidá-las.

Como esquecer quando o presidente chamou Daniela Lima (CNN) de quadrúpede? Ou quando disse que Patricia Campos Mello (Folha de S.Paulo) queria dar o furo, fazendo um trocadilho infame com a expressão jornalística de publicar primeiro uma informação?

Quando os ataques são online, o efeito é ainda pior, dado o alcance das postagens e a consequente campanha de ódio por elas desencadeada.

Levantamento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) mostra que, em 2020, 56,8% das vítimas de ataques no meio digital eram mulheres jornalistas.

A metralhadora giratória de Bolsonaro atinge também jornalistas homens, como no caso do repórter de O Globo que perguntou sobre o depósito feito por Fabrício Queiroz na conta de Michele Bolsonaro e a quem o presidente respondeu: "Minha vontade é encher tua boca com uma porrada".

Segundo o monitoramento de violações à liberdade de imprensa realizado pela Abraji em 2020, o presidente da República foi o campeão com 123 ataques, ou 33,5% do total de alertas registrados no ano.

O comportamento incivilizado de Bolsonaro inclui bloquear jornalistas no Twitter. Desde setembro de 2020, quando a Abraji começou a monitorar bloqueios de autoridades públicas a profissionais da imprensa na rede social, o presidente está na dianteira, com 67 bloqueios.

A cada estocada no(a) mensageiro(a), Jair Bolsonaro confirma seu autoritarismo e seu desprezo pelas regras do jogo democrático. Até quando?

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Cristina Zahar

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