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Ítalo Bezerra: As (in)conveniências da cultura
Ítalo Bezerra

Ítalo Bezerra: As (in)conveniências da cultura

Edição Impressa
Tipo Notícia

Museu consumido pelo fogo, cinemateca virando cinzas, construção símbolo da arquitetura moderna brasileira integrando a lista de imóveis que será oferecida a investidores, bens materiais com tombamento anulado para atender interesses da especulação imobiliária, teatro desmoronando, edificações centenárias demolidas na calada da noite ou desconfiguradas à luz do dia.

Seja em Fortaleza, na cidade do Rio de Janeiro ou na capital paulista os casos citados fazem parte de um mesmo cenário caótico e desolador que confirma o estado de descaso e a política de desprezo pela cultura no Brasil.

Enquanto o fogo ou a marreta minam os esforços de documentação e de preservação da nossa memória e da nossa história vamos perdendo uma herança incalculável, além da oportunidade de explorar bens culturais de valor inestimável para a promoção e desenvolvimento econômico da sociedade.

E se a utilização política da cultura com interesse clientelista cedesse lugar a uma cultura política realmente sensível aos elementos de gênero, raça e classe? E se deixássemos de ser carpideiras dos cadáveres de invasores coloniais celebrados em praça pública e olhássemos para as riquíssimas memórias que habitam o cotidiano e a casa dos sujeitos invisibilizados pela história oficial?

Expandir a compreensão estrita do termo cultura e ampliar as fontes de fomento, sem converter bens públicos em propriedade privada, pode fazer surgir políticas culturais capazes de fortalecer nosso tecido social.

Por mais esgarçado que seja, ele serve de base para melhorar as condições sociais e estimular o crescimento econômico através de projetos de desenvolvimento urbano pela via do turismo cultural, do artesanato, do patrimônio; formar e capacitar produtores de arte e cultura que, por sua vez, alimentam consumidores e comunidades.

Enfim, reconhecer a cultura como catalisadora do desenvolvimento humano e entender que as expressões culturais são simbólicas, mas também ocupam espaços físicos com propósitos políticos que são reais.

Existem muitas formas na sociedade contemporânea de se buscar desenvolvimento econômico e a cultura é uma delas, pois sua função vai além da materialidade. O que é preciso para potencializar esses recursos são instrumentos de aferição capazes de medir as possibilidades e resultados do investimento na cultura para além das intuições e opiniões.

Avaliar o impacto na formação de capital social, saúde, educação, inserir a cultura como produto da História, no passado e no presente.

Mas enquanto o país surfar na onda negacionista que vemos crescente na sociedade brasileira estaremos remando contra a maré, pois a negação dos direitos envolve o presente e o futuro. Sim, a cultura não é nenhuma caridade, é um direito constitucional que nos tem sido negado nas suas mais variadas formas de expressão.

Mola propulsora de geração e distribuição de riqueza a cultura não merece ser clientelista, nem assistencialista, muito menos instrumento de neutralização das mazelas sociais. Seu potencial é exatamente o de superação das desigualdades, de reforço da dignidade e resgate da cidadania. n

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