Opinião

Rui Martinho Rodrigues: A Era do Vazio

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A história, no sentido de sucessão de fatos, se move em diferentes ritmos, que podem ser lentos, médios ou rápidos (Ferdinand Braudel, 1902 - 1985). Lento é o ritmo dos mores (costumes altamente valorados moralmente) e rápido o dos folkways (práticas sociais sem forte significado moral), na classificação de William Graham Sumner (1840 - 1910).

A mudança cultural, porém, tornou-se rápida inclusive no campo dos mores. Tecnologias de informação, fluxos migratórios, dessacralização da cultura, cosmopolitismo, relativismo, desprestígio dos grupos de referência, como professores, clérigos, pais, ou os mais velhos em geral e, mais recentemente, até os especialista, intelectuais e líderes políticos, tudo isso contribuiu para a revolução cultural.

A mudança cultural ampla e profunda, inclusive dos mores, causou uma forma de aculturação que desorienta. Suicídio, criminalidade, dependência química e depressão e fragilização dos laços associativos acompanham a aculturação súbita. Tudo isso era observado entre índios aculturados e em grupos de emigrantes.

Agora o mundo foi aculturado pela transformação histórica acelerada. Professores, comunicadores e intelectuais messiânicos, empenhados em catequisar as massas segundo teorias da contracultura contribuíram para isso. A secularização banalizou os mores.

"A sociedade pós-moralista", "O império do efêmero" ou "A era do vazio: sobre o individualismo contemporâneo" (livros de Gilles Lipovetsky, 1944 - vivo); "Tempos líquidos", "Modernidade líquida", "Vida líquida" (livros de Zygmunt Bauman, 1925 - 2017) expressam a pós- modernidade. É aculturação, desorientação, infelicidade induzida.

O declínio dos estados nacionais, a ascensão dos atores não estatais, a perda de referência e o fim da pax americano-soviética lembram o fim da antiguidade clássica e o início da Idade Média. A revanche do sagrado visivelmente em curso (Leszek Kolakowski, 1929 - 2009) lembra o início da Idade Média.

A orfandade de paradigmas, na era do vazio, encontra resposta no vigor do fundamentalismo. n

 

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Rui Martinho Rodrigues

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