Neste tempo de velocidade vivemos uma secreta angústia. Segundo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, vivemos em um tempo que escorre pelas mãos, um tempo líquido em que nada é para persistir. Não há nada tão intenso, nada sólido que consiga permanecer e se tornar verdadeiramente necessário. Tudo é transitório.
Não há a observação pausada e saboreada daquilo que experimentamos, é preciso fotografar, filmar, comentar, mostrar, sob o risco de não ser considerado verídico. A sociedade está marcada pela ansiedade, reina uma incapacidade de experimentar profundamente o que nos chega, o que importa é poder descrever aos demais, mostrar ao mundo o que se está fazendo. Na contramão, Santo Inácio de Loyola nos ensina a saborear as coisas internamente.
Na era do Instagram e do Tik Tok também não há desagrados, se não gosto de uma declaração, de um pensamento, de um posicionamento, deleto, ignoro, desconecto, bloqueio. É a era do cancelamento e da falta de tolerância. Perde-se a profundidade das relações e dos acontecimentos, perde-se o diálogo que possibilita a harmonia e também o destoar, o discordar.
Nas relações virtuais não existem discussões que terminem em abraços vivos, as discussões são distantes, ásperas. Analisamos o outro por suas fotos, pelas frases de efeito, pelos lugares que frequenta, pelas marcas que expõe, digerimos os recortes feitos pelas imagens publicadas como a vida real, que raramente correspondem à verdade.
Ao mesmo tempo em que experimentamos um isolamento protetor, vivenciamos uma absoluta exposição. Não há o privado, tudo é desvendado: o que se come, o que se compra; o que nos atormenta e o que nos alegra. Vivemos um tempo de angústia e ansiedade. Filosoficamente a angústia é o sentimento do nada e a ansiedade da aceleração. O corpo se inquieta e a alma sufoca. Há uma vertigem conduzindo as relações, tudo se torna vacilante, tudo pode ser deletado, cancelado: o amor e as amizades.
Na espiritualidade Inaciana o discernimento ocupa um lugar de destaque. Alimentemos a capacidade de discernir os prós e os contras para uma decisão madura e feliz. Não podemos fugir das realidades tecnológicas na modernidade, porém devemos usá-las com discernimento, senso crítico e maturidade para que não nos tornemos escravos delas e caíamos num individualismo doentio que nos separa dos outros e nos afasta da realidade.
Pense nisso. n