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Sobral: passado como futuro?
Opinião

Sobral: passado como futuro?

Performando uma espécie de populismo religioso, a atual gestão parece não apenas firmar um pacto com a Diocese contra um adversário comum, mas também reabilitar as forças do passado para municiar disputas do futuro
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Rodrigo Chaves De Mello

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Quinto colégio eleitoral, Sobral é decisiva em qualquer análise sobre os rumos políticos do Ceará. O município passou por um abalo sísmico no último ciclo eleitoral com a derrota da influente família Ferreira Gomes, deixando analistas e políticos atentos aos desdobramentos dessa inflexão.

Muito se escreveu sobre a derrota do grupo em sua cidadela. Porém, no calor da disputa, pouco se podia prever sobre os caminhos vindouros da política municipal, agora sob nova direção. Com a poeira da contenda assentada, tendências começam a se delinear.

Próximo de seus primeiros cem dias na gestão, o prefeito Oscar Rodrigues revela-se, na superfície, como um personagem de carisma questionável, ainda em busca de uma comunicação mais eficaz com a cidade. Para compensar essa fragilidade, tem apostado em dois expedientes: a utilização de seu filho, o deputado federal Moses Rodrigues como uma espécie de porta-voz informal do mandato — o que alimenta a anedota da cidade de "dois prefeitos" — e a adoção de políticas polêmicas, sobretudo na gestão do trânsito. Nada demais: governos novos precisam de tempo para se firmar.

Mas, abaixo da superfície, ensaiam-se passos relevantes na busca por uma ruptura com a era Ferreira Gomes. Durante seus governos, os Ferreira Gomes se apresentaram como força modernizadora, enfrentando, para tanto, a antiga elite local, representada por seu núcleo diocesano. As rusgas foram públicas, escalaram quando o município interveio na Santa Casa de Misericórdia e miraram especialmente ao bispo.

Ainda na campanha, Oscar já apontava o religioso como um perseguido político. Eleito, articula a criação de uma CPI para investigar a intervenção e, desde então, não tem medido esforços para reabilitar a imagem pública da Diocese e de seus personagens. Exemplo disso foi o festival Sobral da Fé, evento que reuniu uma pequena multidão em oração enquanto o resto do país celebrava o Carnaval.

Performando uma espécie de populismo religioso, a atual gestão parece não apenas firmar um pacto com a Diocese contra um adversário comum, mas também reabilitar as forças do passado para municiar disputas do futuro.

A conferir.

 

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