Há 65 anos, no dia 26 de março de 1960, ocorreu o transbordamento de parte da barragem do açude Orós. Sob a responsabilidade do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), a barragem do Orós estava em construção no momento do acidente, embora sua inauguração tivesse sido marcada para outubro de 1959. O plano de economia desse ano fez com que os recursos necessários para o término da obra fossem bloqueados pelo governo federal, que contraditoriamente havia lançado nesse ano a Operação Nordeste!
Para o azar dos cearenses, as águas do Jaguaribe não esperaram as verbas do governo e desceram o vale atingindo 170 mil pessoas, alagando cidades e destruindo açudes, automóveis, casas, estradas, fábricas, pontes e plantações. E, por incrível que pareça, os memorialistas acreditam que, na tragédia do Orós, não houve mortes.
Fato é que o combate às secas organizado pelo Estado brasileiro ganhava impulso somente na emergência das secas, prejudicando a ação continuada do Dnocs e os interesses das oligarquias do Nordeste. É certo que o Dnocs deveria agir na emergência provocada pelas estiagens, pois senão estaria contrariando a Constituição e os oligarcas do Nordeste que procuravam se beneficiar dos serviços prestados pelo órgão.
Foi, por essa razão, que as oligarquias do Sul e do Sudeste não acreditavam na seriedade da luta contra as secas, traduzindo a intervenção federal apenas por indústria da seca, e, assim, anulavam a orientação do Dnocs, rebaixando o seu orçamento a quase nada, o que, além de fazer da defesa metódica uma intervenção meramente pontual, causava morosidade na realização das obras hidráulicas. Para se ter uma ideia disso, o projeto do Orós era de 1912!
A tragédia no Ceará é resultante, pois, da luta entre as oligarquias por fatias e recursos do Estado. Se a República tivesse levado a sério o problema das secas, não teria havido a mistura nada aconselhável de engenharia com assistência, que resultou em erros grosseiros, obras mal-acabadas e subnotificação das tragédias.
Assim, no caso do Orós, não houve erro de projeto, mas sim de nossa politicagem. Agora esse evento não deve ser lembrado apenas pela covardia de nossas autoridades, mas também pela fúria heroica e responsabilidade cívica dos sertanejos, sexagenários, que diante da força das águas do Jaguaribe, cavaram o solo com as próprias mãos para evitar a tragédia!
Portanto, a causa desse acidente está localizada num passado distante, que hoje se reproduz como estrutura, especialmente no esquema emendas parlamentares – órgãos de infraestrutura – clientelismo político. Oxalá que, em vez de obras, não tenhamos mais tragédias!
* Edgar Braga Neto é historiador, sociólogo e professor de história da Universidade Federal do Maranhão