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Nathana Garcez: Um acordo sem direção
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Opinião

Nathana Garcez: Um acordo sem direção

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Nathana Garcez, doutoranda em Relações Internaiconais (Foto: Marcelo Freire)
Foto: Marcelo Freire Nathana Garcez, doutoranda em Relações Internaiconais

O dia 21 de novembro de 2025 foi certamente um dia de emoções a flor da pele. Após semanas de negociações, permeadas por tensões político-sociais, o último dia da COP-30 carregava a atmosfera típica dos momentos decisivos da história social: corredores lotados, delegações revisando linhas inteiras de texto até os minutos finais e uma pressão crescente da sociedade civil que, desde Belém, acompanhava cada passo do processo em vigílias, debates e marchas.

O último dia da COP-30 era aquele que muitos esperavam ver nascer um acordo histórico - sobretudo por ocorrer no coração da Amazônia, em um Brasil que busca se afirmar como uma liderança mundial e climática.

A expectativa era de que a conferência entregasse um roteiro global para eliminar progressivamente os combustíveis fósseis e um plano concreto de proteção florestal. Ambos foram discutidos exaustivamente durante as semanas de negociações. Porém, as iniciativas naufragaram diante das resistências dos países produtores de petróleo e gás, gerando frustração nas delegações mais ambiciosas e nas organizações ambientais.

Ao fim da noite, restou um texto final considerado "possível", não "ideal". O documento reconhece a necessidade de descarbonização global, mas não estabelece metas claras, cronogramas ou mecanismos de monitoramento para a redução da produção de combustíveis fósseis.

O acordo também inclui um compromisso global de triplicar o financiamento para adaptação até 2035 e formaliza o Mecanismo de Transição Justa, destinado a apoiar trabalhadores, comunidades tradicionais e povos indígenas diante das mudanças no uso da terra e na economia energética. Contudo, embora esses avanços sejam relevantes, a conferência não conseguiu construir um mapa formal, aprovado no âmbito da ONU, que oferecesse diretrizes vinculantes para a transição energética.

Como uma espécie de "prêmio de consolação" para negociadores e ambientalistas que viram a COP-30 como um retrocesso político e um evento desconectado da urgência climática, surgiram iniciativas paralelas e voluntárias, lideradas por Brasil e Colômbia, que prometem apresentar -- fora do guarda-chuva institucional das Nações Unidas -- um plano para transição energética, descarbonização e conservação florestal. No entanto, sem um plano global, referendado pelas Nações Unidas, para enfrentar a dependência de petróleo, gás e carvão, esses esforços, embora bem-vindos, permanecem insuficientes para alterar de forma significativa o curso da crise climática.

O 21 de novembro, portanto, entrou para a história como o dia em que a comunidade internacional não conseguiu alcançar um marco histórico de cooperação. Um fechamento carregado de simbolismo: no centro da maior floresta tropical do planeta, o mundo viu mais uma vez o peso dos interesses fósseis superar as demandas da ciência, da justiça climática e das populações mais vulneráveis.

1 Pesquisadora bolsista do IPEA, doutora em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNICAMP/UNESP/PUC-SP) e mestra em Economia Política Internacional pelo Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ (PEPI/UFRJ).

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