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Os planos e a paz
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Os planos e a paz

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Gustavo Glodes Blum. Internacionalista, doutor em Geografia (IG-Unicamp) e mestre em Geografia (PPGGeografia-UFPR). (Foto: Arquivo Pessoal)
Foto: Arquivo Pessoal Gustavo Glodes Blum. Internacionalista, doutor em Geografia (IG-Unicamp) e mestre em Geografia (PPGGeografia-UFPR).

Ao longo das últimas semanas, vêm sendo costurado um plano de paz para o conflito russo-ucraniano. Esta é mais uma das últimas iniciativas do regime Trump, que busca equilibrar a pressão interna que vem recebendo com relação a escândalos políticos e uma potencial recessão econômica com as intenções de projetar seu poder no cenário internacional.

A aproximação dos Estados Unidos com a Rússia de Vladimir Putin, materializada no último mês de agosto no Alasca, tem como preocupação principal eliminar da agenda política internacional temas que podem atrapalhar seu governo. Após a afirmação de que Trump teria dado fim a um conjunto cada vez mais vasto de conflitos internacionais, um potencial cessar-fogo ou mesmo um acordo de paz parece ser a vitória política que um cambaleante governante que vai enfrentar importantes eleições legislativas em 2026 precisa.

Foram os representantes do regime Trump para as negociações que flutuaram a existência de um documento que poderia ser trabalhado para alcançar a paz neste conflito. Em uma reunião com o chefe de um dos principais fundos soberanos da Rússia, Kiril Dmitriev, o genro de Trump Jared Kushner e o enviado especial para missões de paz Steve Witkoff debateram a estrutura do plano. Esta reunião - para a qual, agora sabe-se, um documento oficial do governo russo foi enviado - foi aquela que fundamentou os 28 pontos do plano de paz para o conflito.

Ocorre que este é mais um dos diferentes planos de paz apresentados para resolver o diferendo entre Rússia e Ucrânia, que se tornou mais premente no cenário internacional em razão do fato de envolver o controle diretos de parte do território ucraniano. Ainda em 2023, a China apresentou um documento chamado "Posição Chinesa para a Solução Política da Crise Ucraniana", que enfatizava o respeito ao direito internacional e à não-intervenção em assuntos internos.

Este documento foi a base de um plano assinado em conjunto com o Brasil em 2024, que previa a diminuição da escalada de violência, negociação direta e a realização de uma conferência de paz que reunisse tanto a Ucrânia quanto a Rússia.

Esta questão parece um tanto quanto óbvia, mas é importante lembrar que não o é. Ao longo dos anos de 2022, 2023 e 2024. Neste ano, inclusive, a Suíça presidiu um "Encontro para a Paz na Ucrânia" que reuniu 92 países e 8 organizações internacionais, mas não contou com a presença dos russos.

Este encontro foi a continuidade de um plano de dez pontos desenvolvido pelo líder ucraniano, Volodymyr Zelensky, que previa posições radicais, como o retorno não apenas das áreas conquistadas pela Rússia desde 2022, mas inclusive da Crimeia, anexada à Federação Russa em 2014.

O plano apresentado pelos representantes do regime de Trump vem ganhando força enquanto um documento aceito por diferentes atores internacionais para resolver a questão. Porém, com os Estados Unidos sendo considerado cada vez mais um aliado não-confiável por diferentes atores, pode haver mudanças no papel não apenas da Ucrânia e da Rússia, mas também dos países europeus.

Aqueles que são membros da OTAN, por exemplo, podem acabar sendo os responsáveis por arcar com as garantias de segurança agora prometidas por Trump, mas sem a certeza de que este os apoiaria contra Putin. Resta aguardar as cenas dos próximos capítulos.

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