A menos de 300 metros de minha casa há uma padaria excelente. Ir até lá a pé, no entanto, é uma experiência desagradável. No caminho, um prédio de alto padrão ergueu uma muralha de mais de três metros e abandonou a calçada, hoje degradada e transformada em ponto de uso de drogas. Do outro lado da rua, a calçada é árida, sem uma única árvore, tornando a caminhada um percurso sob calor escaldante. Isso ocorre no Meireles, área com o metro quadrado mais caro de Fortaleza.
A cidade cresce, se verticaliza e, em muitos aspectos, se sofistica. Edifícios de alto padrão exibem fachadas elegantes e áreas comuns que rivalizam com as de grandes centros urbanos. Mas basta sair da portaria desses prédios para encontrar o contraste: calçadas precárias, fios aéreos emaranhados e arborização insuficiente.
As calçadas de Fortaleza, na grande maioria, são irregulares, estreitas, mal conservadas e frequentemente interrompidas por postes, buracos e obstáculos improvisados. Caminhar exige atenção constante, quase um teste de equilíbrio, especialmente para idosos, pessoas com deficiência, crianças e mães com carrinhos. A calçada, que deveria ser o espaço mais democrático da cidade, é tratada como detalhe secundário, quando não como um problema sem dono.
A arborização urbana também é insuficiente e mal distribuída. Em uma cidade quente como Fortaleza, sombra não é luxo paisagístico, mas infraestrutura essencial. Árvores qualificam o espaço público, reduzem o desconforto térmico e estimulam a circulação a pé.
Se esse contraste já incomoda nos bairros mais valorizados, ele se agrava nas áreas mais pobres, onde o espaço urbano se torna ainda mais hostil ao pedestre.
Melhorar esse quadro é muito mais questão de governança administrativa e de mentalidade do que de recursos financeiros expressivos. Basta o poder público municipal organizar a fiscalização das calçadas e estimular o plantio de árvores, inicialmente com notificações educativas, de conscientização, e no segundo momento com sanções aos que não seguirem as diretrizes urbanas.
Discutir calçadas e árvores não é tratar de temas menores. É tratar de dignidade urbana, inclusão, saúde, mobilidade e cidadania. Uma cidade boa de morar não abandona o chão onde as pessoas caminham, qualidade de vida envolve necessariamente melhoria nesse campo.