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Democratura
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Opinião

Democratura

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Juliana Monteiro (Foto: arquivo pessoal)
Foto: arquivo pessoal Juliana Monteiro

Neste ano, se consolidou uma tendência que se desenhava há décadas na dinâmica do sistema internacional: a ordem liberal internacional nada mais é do que uma máscara de si mesma. De um lado, persistem autoritarismos e autocracias já familiares ao imaginário ocidental, como Rússia, Venezuela, Irã, Coreia do Norte, globalmente interconectados e cooperando para minar normas liberais e reforçar déspotas que corroem mecanismos democráticos tradicionais. A contundência da farsa liberal, no entanto, não se produziu por pressão externa, mas pelas fissuras internas de seus próprios modelos.

A incapacidade europeia de sustentar uma política externa coerente, o avanço da normalização do autoritarismo nos Estados Unidos e a guinada política observada na América Latina parecem menos fenômenos isolados e mais expressões de uma mesma crise de identidade das democracias liberais.

A guerra em Gaza escancarou o duplo padrão europeu na defesa do direito internacional: ao mesmo tempo em que sustenta um discurso firme em defesa da soberania ucraniana, tolera - quando não endossa - ações israelenses amplamente contestadas sob o mesmo arcabouço jurídico, corroendo sua base de sustentação normativa humanitária e moral.

Nos EUA, as instituições seguem funcionando, mas normas fundamentais da democracia que balizaram a sociedade estadunidense desde a sua fundação, como o respeito aos resultados eleitorais, a independência institucional e os limites ao poder executivo, vêm sendo sistematicamente esvaziadas, com a complacência de elites políticas e econômicas. Um processo que reverbera com força na América Latina, onde a guinada à direita não se limita a uma alternância ideológica, mas aponta para uma reconfiguração da relação entre democracia e autoridade.

Líderes como Javier Milei e Nayib Bukele emergem em contextos de frustração econômica, insegurança e incapacidade estatal, evocando menos o simbolismo de uma ditadura clássica e mais uma aceitação social por soluções autoritárias. Governantes eleitos que desafiam freios institucionais, relativizam direitos civis e reorganizam o debate público em torno de ordem, punição e liderança forte, frequentemente sob aplausos internos e externos. Nesse cenário, a democracia liberal deixa de ser o horizonte normativo incontestável e passa a se auto mimetizar.

Sua linguagem persiste, mas esvaziada; suas instituições permanecem, mas operam sob tensão constante; e seus defensores invocam valores universais enquanto praticam exceções estratégicas. Nessa contenda, o autoritarismo não avança apenas pela força, mas pela normalização, pela incoerência, limitação e fadiga da democracia, que sobrevive enquanto forma desprovida de conteúdo.

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