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Cidadãos de bem, vítimas do mal
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Opinião

Cidadãos de bem, vítimas do mal

A realidade da extorsão abusiva contra o casal, seguida de pancadas que fizeram os dois sangrar, instantaneamente, passou a compor um repertório de menos gravidade ao se identificar os dois como de um polo político oposto
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Emanuel Freitas da Silva. Professor adjunto de Teoria Política (Uece/Facedi), professor permanente do programa pós-graduação em Políticas Públicas (Uece) e professor permanente do programa de pós-graduação em Sociologia (Uece). Presidente do Núcleo de Acompanhamento da Política de Cotas Raciais (NUAPCR). (Foto: opovo mais)
Foto: opovo mais Emanuel Freitas da Silva. Professor adjunto de Teoria Política (Uece/Facedi), professor permanente do programa pós-graduação em Políticas Públicas (Uece) e professor permanente do programa de pós-graduação em Sociologia (Uece). Presidente do Núcleo de Acompanhamento da Política de Cotas Raciais (NUAPCR).

Passavam dois dias do Natal e faltavam quatro para a passagem de ano quando as redes sociais foram tomadas pelas imagens de dois turistas mato-grossenses, espancados por vendedores na praia de Porto de Galinhas, em Pernambuco, após recusarem-se a pagar taxas abusivas cobradas ali de quem senta-se para aproveitar a praia.

As cenas mostravam dois homens espancados, ensanguentados, por uma turba que parecia excitada pela ânsia de violentar. Vários contra dois.

Com a repercussão das imagens em veículos da mídia tradicional, o caso se nacionalizou e a solidariedade se ampliou ao se saber que se tratava de um casal. Nas redes sociais, revolta pelo ocorrido e relatos aos montes se juntaram para denunciar a prática abusiva que seria recorrente ali; com o avançar do tempo, outras barracas de praia também tinham a cobrança abusiva relatada por dezenas de brasileiros.

A revolta e o estupor foram gerais. A governadora do estado se pronunciou e cobrou diligências. A prefeitura de Ipojuca fez-se obrigar, somente depois disso, a fiscalizar o cumprimento de lei sancionada em 2019, emitindo novo decreto.

Pois bem, (quase) tudo mudou depois que se começou a desconfiar da identidade política do casal. A sunga usada por um deles despertou a desconfiança de que seriam “bolsonaristas”, “gays de direita”, que visariam reproduzir, através do caso, estereótipos sobre o Nordeste, o que só se agravaria com a informação de que passaram a virada de ano em Balneário Camboriú, a convite da prefeitura.
Politizou-se: o caso, a violência, a cobrança, o desfecho.

A realidade da extorsão abusiva, seguida de pancadas que os fizeram sangrar, instantaneamente passou a compor um repertório de menos gravidade ao se identificar os dois como do polo político oposto.
Não seriam vidas dignas, não pertenciam ao “lado de cá”. Era a versão, à esquerda, da ideia de “cidadão de bem” ou do “humano direito”; daí, “todo castigo é pouco”.

O tribunal das redes é implacável, e sua solidariedade é efêmera. Triste fim de nosso tempo. Não existem humanos em geral; a condição humanoide é dada pela filiação a um espectro político.

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