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Regina Ribeiro: O que a década de 2020 desenha para o futuro
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Opinião

Regina Ribeiro: O que a década de 2020 desenha para o futuro

A complexidade dos tempos contemporâneos parece nos deixar ainda mais vulneráveis, numa sociedade dominada por seres falantes e não pensantes à semelhança dos não humanos que já deverão estar estocados para os conflitos bélicos que se avizinham 
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2026 começou fervendo. No Brasil, mal a gente se refez do debate estéril sobre em qual dos pés deve-se fincar o Novo Ano, os Estados Unidos invadem a Venezuela, arrancam o ditador Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores do país e os leva para serem julgados nos Estados Unidos como narcotraficantes. E, como de praxe na sociedade de fala sem pensamento, lemos, a torto e a direito, opiniões “super abalizadas” que concordam com a ação de Trump no país latino e torcem para o mesmo acontecer no Brasil.

Em primeiro lugar, considero, sim, Nicolás Maduro um criminoso pela forma cruel como trata adversários políticos, por ter causado um dos maiores êxodos num país latino-americano pela fome e toda sorte de escassez, pelas milhares de mortes promovidas pelas forças governamentais que agiam sob seu comando nas manifestações contrárias ao governo, entre tantos outros motivos, que incluem ainda, eleições com resultados duvidosos.

Os crimes de Maduro são vários e ele deve ser julgado e condenado. No entanto, o povo venezuelano é que teria de ter o privilégio de comandar esse processo. O povo venezuelano é que deveria levar Maduro a prestar contas com seu país, como aconteceu na Argentina, no Chile, e agora, no Brasil. Isso não impediria que outras acusações contra ele, incluindo o narcotráfico, caso comprovado, pudessem também incorrer em sanções contra o ditador.

No entanto, quando os Estados Unidos negam invasão de território internacional e afirmam que "cumpriram a lei" ao prenderem o ditador venezuelano, é apenas um sofisma do exercício de poder errático, como classificam vários analistas em jornais estadunidenses se referindo ao tipo de política externa praticado por Trump. Desde que assumiu o segundo mandato presidencial, Trump tem dito que quer guerra, embora almeje o Prêmio Nobel da Paz. Quer o Canadá, a Groelândia, o Canal do Panamá (ou do México), quer Gaza, quer a Venezuela, se agrada da Colômbia.

Ao mesmo tempo em que está implodindo o multilateralismo, parece ressuscitar o gosto pela ampliação de territórios à força bruta. O governo Trump deveria nos levar ao exame dos contrastes dos anos de 1920 que inventaram dança, moda e ritmos novos, ao mesmo tempo em que fomentaram as bases para a Segunda Guerra Mundial, com tudo o que já sabemos. Embora não se repita, é importante aprendermos com a dona História.

Tempos sombrios, como alerta Hannah Arendt, se desenham debaixo de nosso nariz, levantando personagens absolutos, à margem das leis, ou criando novas que atendam a seus interesses absolutistas. Muito diferente do século XX, a complexidade dos tempos contemporâneos parece nos deixar ainda mais vulneráveis, numa sociedade dominada por seres falantes e não pensantes, à semelhança dos não humanos que já deverão estar estocados para os conflitos bélicos que se avizinham.

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