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João Saraiva: Imperialismo em tempo real
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Opinião

João Saraiva: Imperialismo em tempo real

A Doutrina Monroe (1823) nasceu como frase solene ("América para os americanos") e virou gramática imperial: quando interesses econômicos, prestígio e segurança entram em cena, a soberania latino-americana vira detalhe burocrático
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João Saraiva

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O noticiário, de repente, pareceu uma velha aula de História. Donald Trump autorizou uma operação militar em território venezuelano, capturou Nicolás Maduro e o levou aos Estados Unidos para responder a acusações criminais. Em seguida, passou a ameaçar a Colômbia, insinuando que uma ação militar “soa bem”, e mandou recados ao México e a Cuba, como quem distribui advertências num quintal que julga ser seu.

O problema não é apenas Trump; é o método! A Doutrina Monroe (1823) nasceu como frase solene (“América para os americanos”) e virou gramática imperial: quando interesses econômicos, prestígio e segurança entram em cena, a soberania latino-americana vira detalhe burocrático. Guatemala (1954), Cuba (1961), Chile (1973), Nicarágua (anos 1980), Granada (1983), Panamá (1989): mudam os nomes, repete-se a lição. O império chama de “ordem”; o continente reconhece “obediência”.

Quando o multilateralismo atrapalha, ele é empurrado para o canto. Não é novidade contornar a ONU, do Vietnã (1955-1975) ao Iraque (2003). A lógica é direta: se a regra impede, declara-se a exceção. Carl Schmitt chamaria isso de soberania bruta; Arendt lembraria que violência até produz silêncio, mas não fabrica legitimidade.

Sob o verniz moral (“guerra às drogas”, “defesa da democracia”), a política externa vira atalho: relativiza-se o direito internacional e a força passa a funcionar como argumento. Aqui a sociologia ilumina: Bourdieu chamaria de poder simbólico; Weber, de narrativa de legitimidade. E, para completar o quadro, a Casa Branca volta a hostilizar organismos internacionais: acena com retirada da UNESCO, corta verbas, ameaça sanções e tarifas para enquadrar vizinhos. Quando a ONU não chancela, o império chancela a si mesmo.

No fim, há também o espetáculo doméstico. Quando a política interna produz ruídos, fracassos ou desgaste, o inimigo externo vira cortina de fumaça. A prepotência rende aplauso rápido, mas cobra caro: alimenta ressentimentos, desestabiliza vizinhos e reabre feridas que nunca cicatrizaram direito. A América Latina não precisa de tutores. Precisa, finalmente, de respeito. E, se a democracia é o argumento, que valha para todos. Nenhum país se democratiza sob chantagem.

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