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Amanda Oliveira: Maternidade além do que se vê
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Opinião

Amanda Oliveira: Maternidade além do que se vê

Muitas vezes, a mesma mulher que revisa relatórios enquanto o bebê dorme, fecha contratos milionários no mesmo dia em que esqueceu a reunião da escola ou guarda lágrimas silenciosas depois de discursos impecáveis
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Amanda Oliveira. Psicóloga Clínica. (Foto: Arquivo Pessoal)
Foto: Arquivo Pessoal Amanda Oliveira. Psicóloga Clínica.

Ser mãe é atravessar uma fronteira invisível. É como se, de repente, tudo o que antes parecia estável ganhasse novas cores, sons e silêncios. A ciência já comprovou que a gestação remodela o cérebro feminino. Mas, muito além da biologia, a maternidade desperta algo ainda mais transformador: uma sensibilidade refinada, uma atenção que enxerga o que antes passava despercebido e uma capacidade de se reinventar diariamente.

O que poucos falam é que essa intensidade também cobra um preço. A mesma mulher que lidera equipes, toma decisões estratégicas e sustenta responsabilidades gigantes sente, no íntimo, o peso de tentar ser perfeita em todos os papéis. Muitas vezes, revisa relatórios enquanto o bebê dorme, fecha contratos milionários no mesmo dia em que esqueceu a reunião da escola ou guarda lágrimas silenciosas depois de discursos impecáveis. É o silêncio das mulheres fortes, das que aparentam estar no controle, mas se cobram até no que não controlam e raramente se permitem descansar.

Pesquisas mostram que cerca de 80% das mães relatam mudanças emocionais marcantes após o parto. Isso não significa fraqueza. Significa humanidade. Significa que, enquanto a sociedade exige desempenho, a mente e o corpo pedem acolhimento.

Não à toa, cresce o número de mulheres bem-sucedidas que enfrentam ansiedade, esgotamento e/ou culpa materna - mesmo rodeadas de recursos, conhecimento e apoio. Esse dado revela algo essencial: sucesso profissional não anula vulnerabilidade emocional, pelo contrário, pode até intensificá-la.

Investir em  saúde emocional não é luxo. É sabedoria. É estratégia. Porque a mulher que aprende a silenciar a autocrítica, a pedir ajuda e a se permitir falhar encontra forças para sustentar não apenas sua família, mas também sua carreira e seus sonhos. Cuidar de si não é egoísmo, é uma forma poderosa e necessária de garantir presença e qualidade no cuidado com os filhos.

A maternidade consciente não é apenas sobre criar filhos: é sobre recriar a si mesma. É sobre aprender a investir no que de fato tem valor - mente, coração e futuro. Para quem amamos. E para nós mesmas.

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