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Flavia Loss: Venezuela: cenário além da polarização
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Opinião

Flavia Loss: Venezuela: cenário além da polarização

O madurismo segue governando a Venezuela na figura de Delcy Rodríguez. Mas Delcy não é de esquerda? E a oposição alinhada a Trump? Não há contradição: os EUA precisam de um governo capaz de administrar o país e a oposição é incapaz disso
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Flavia Loss de Araujo. Doutora pelo Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP) e mestra pelo Programa de Pós-Graduação Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (PROLAM-USP). Professora do Instituto Mauá de Tecnologia e pesquisadora do Observatório do Regionalismo (ODR) e do Centro de Estudos das Negociações Internacionais (CAENI). (Foto: Arquivo Pessoal)
Foto: Arquivo Pessoal Flavia Loss de Araujo. Doutora pelo Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP) e mestra pelo Programa de Pós-Graduação Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (PROLAM-USP). Professora do Instituto Mauá de Tecnologia e pesquisadora do Observatório do Regionalismo (ODR) e do Centro de Estudos das Negociações Internacionais (CAENI).

Em tempos de polarização política no Brasil, o recente ataque dos Estados Unidos à Venezuela e a prisão de Nicolás Maduro reacenderam as discussões nas redes sociais. Para grande parte dos brasileiros, a questão da Venezuela é entendida através de lentes puramente ideológicas e, consequentemente, maniqueístas.

Os assuntos internacionais se tornaram extensão dos nossos embates domésticos, e os atores são entendidos como "bons" ou "maus". Interpretamos a situação de acordo com as nossas preferências e ignoramos que os países não seguem necessariamente diretrizes ideológicas em sua atuação internacional.

Isso não significa que as ideologias sejam ruins; ao contrário, servem como interpretação da realidade. Torna-se preocupante, porém, quando nossas preferências políticas nos cegam a ponto de ignorarmos os fatos, comportamento frequente nas manifestações sobre a Venezuela.

O ano eleitoral no Brasil só agrava a situação e rapidamente o tema passou a ser explorado pelo marketing de diversos políticos, muitos dos quais não possuem afinidade com temas internacionais. Na busca por uma explicação para o que está ocorrendo, as pessoas dão ouvidos a explicações fáceis que agradem às suas crenças pessoais.

A política internacional, porém, opera em uma lógica e tempo diferentes da política doméstica e os países são movidos, principalmente, por interesses de poder e segurança que nem sempre estão alinhados ao espectro ideológico de determinado governo. As ideologias operam papel inegável, mas não são o único fator explicativo e frequentemente servem para justificar interesses.

O caso venezuelano evidencia isso em dois pontos: como Trump deixou explícito em coletiva recente, os motivos do ataque não estão vinculados ao fim de um governo autoritário ou a defesa da liberdade, mas sim a interesses conectados ao poder no sentido amplo, como acesso a recursos e dissuasão contra outras potências.

O madurismo segue governando a Venezuela na figura de Delcy Rodríguez. Mas Delcy não é de esquerda? E a oposição alinhada a Trump? Não há contradição: os EUA precisam de um governo capaz de administrar o país e a oposição, além de desunida, é incapaz disso.

O segundo ponto é que o desmantelamento da ordem global acelerado por Trump é nocivo. Ao romper com os valores e normas do direito internacional, os EUA extinguem as (poucas) garantias que existiam no relacionamento entre Estados e cria instabilidade. Os regimes internacionais dependem da adesão dos Estados para funcionar; se a maior potência e criadora da ordem atual não segue esses princípios, qual a motivação para que outros países os respeitem?

Em resumo, é necessário enxergar os interesses em jogo, incluindo os do Brasil. Independentemente da orientação política, precisamos estar atentos às novas movimentações que ocorrem na América do Sul para além dos discursos dos políticos que gostamos ou rejeitamos.

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