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Heitor Férrer: O preço da força no fim da ditadura de Maduro
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Opinião

Heitor Férrer: O preço da força no fim da ditadura de Maduro

.Nicolás Maduro já deveria ter caído há muito tempo. Não pelas mãos de potências estrangeiras, mas pelo levante legítimo do povo venezuelano, guindado pela democracia que lhe foi sequestrada
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Heitor Ferrer (Foto: Arquivo pessoal )
Foto: Arquivo pessoal Heitor Ferrer

A prisão de Nicolás Maduro, decorrente de uma intervenção direta dos Estados Unidos na Venezuela, provoca sentimentos contraditórios em quem defende, de forma inegociável, a democracia. De um lado, cai um ditador abominável, um lixo, um verme humano que jamais deveria ter recebido afagos de qualquer nação civilizada. De outro, impõe-se ao mundo uma lógica perigosa: a força como instrumento de reorganização geopolítica.

Maduro já deveria ter caído há muito tempo. Não pelas mãos de potências estrangeiras, mas pelo levante legítimo do povo venezuelano, guindado pela democracia que lhe foi sequestrada. Seu regime, herdado do autoritarismo de Hugo Chávez, sustentou-se em eleições fraudulentas, no controle absoluto das instituições e na negação sistemática das liberdades. Um monstro político que transformou uma nação rica em petróleo em um território de miséria, êxodo e humilhação.

É compreensível, portanto, que muitos venezuelanos aplaudam o fim do tirano, ainda que isso custe a soberania nacional. Entre a submissão a um ditador e a tutela estrangeira, muitos optam por se livrar do algoz. A queda de Maduro, em si, merece ser festejada. Ditadores não merecem reconhecimento, tampouco carinho diplomático.

Entretanto, o método importa. Ao anunciar que controlará a Venezuela e suas principais riquezas, especialmente o petróleo, os Estados Unidos inauguram uma nova ordem mundial baseada, não no direito internacional, mas na imposição da força, uma lógica que remete ao Império Romano, onde o imperador decidia, com suas legiões, quais povos seriam conquistados e submetidos.

Esse precedente é grave e não pode ser ignorado. Hoje é a Venezuela, amanhã pode ser qualquer outra nação. Sob o argumento de uma "causa nobre" ou de um "interesse global", abre-se espaço para que potências decidam quem governa e quem administra as riquezas de um país. Imagine-se, por exemplo, se os Estados Unidos resolvessem intervir no Brasil justificando que a Amazônia não estaria sendo devidamente protegida e, em nome da humanidade, invadisse nosso território. Aceitaríamos? Aplaudiríamos? Claro que não.

Em 2023, critiquei, publicamente, a forma prestigiosa como o presidente Lula recebeu Maduro no Brasil. Maduro era ilegítimo, fraudou eleições, negou as atas exigidas internacionalmente e jamais deveria ter sido recebido como chefe de Estado legítimo. Seu governo precisava cair, sim, mas pela pressão interna do povo venezuelano e pelo isolamento diplomático, nunca por invasão de força estrangeira.

A democracia não pode ser defendida atropelando a soberania dos povos sob pena de fortalecer o discurso conveniente dos mais fortes. Amanhã, poderemos ser o próximo.

P.S.: Enquanto escrevo este artigo, Trump publica nas redes sociais: "o hemisfério ocidental é nosso". Que horror...

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