A deposição de Nicolás Maduro não foi uma surpresa e deve ser analisada a partir de três dimensões centrais: a mudança da política externa dos Estados Unidos, os riscos internos do processo de transição na Venezuela e os impactos na dinâmica geopolítica global.
A Política de Segurança Nacional do governo Trump confirmou sua inflexão estratégica ao reafirmar o continente como sua esfera de influência prioritária, com base na Doutrina Moore, também chamada Corolário Trump. Essa abordagem reforça uma lógica intervencionista, voltada à defesa direta dos interesses norte-americanos e à exclusão de potências extra-regionais do controle de recursos estratégicos na América Latina.
O recado de Washington foi: os Estados Unidos continuarão a agir sempre que identificarem ameaças aos seus interesses, especialmente, no acesso a recursos estratégicos, como o petróleo venezuelano. A captura política de Maduro funcionou como um troféu simbólico e um marco inicial, mas o próprio Trump deixou claro que essa ação representa apenas o começo.
No plano interno venezuelano, a estratégia norte-americana envolve riscos significativos. A escolha de um membro do chavismo para conduzir a transição política indicou que a prioridade dos Estados Unidos não é a promoção da democracia, mas a estabilidade necessária para garantir seus interesses. Trata-se de um padrão histórico da política externa norte-americana na região: governos aliados nem sempre são governos democráticos. Ainda assim, a aposta envolve riscos, sobretudo quanto à capacidade de Delcy Rodríguez de controlar os grupos internos e garantir a submissão dos militares, que concentram grande parte do poder no país.
No plano internacional, a deposição de Maduro também produz efeitos na dinâmica geopolítica. Até o momento, China e Rússia se limitaram a respostas retóricas, ainda que com tom duro de condenação às ações dos Estados Unidos. Porém, a China recentemente divulgou sua política externa para a América Latina, enfatizando laços de cooperação econômica, política e tecnológica. Pequim procura se apresentar como uma alternativa ao discurso beligerante e intervencionista de Washington, oferecendo apoio, recursos e parcerias e reafirmando os preceitos da não-interferência nos assuntos internos dos países.
No caso da Rússia, a postura é condicionada pelas negociações relacionadas à Ucrânia. Manter certa distância em relação à crise venezuelana parece ser uma estratégia deliberada para evitar provocar Trump, que poderia, em resposta, intensificar o apoio norte-americano à Ucrânia.
Por final, outra lição é que a ordem internacional construída no pós-Segunda Guerra Mundial já não se sustenta, e os acontecimentos recentes sinalizam que estamos diante de um novo arranjo global, cuja dinâmica ainda permanece em aberto.