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Romário Fernandes: O segredo por trás do objeto interestelar
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Opinião

Romário Fernandes: O segredo por trás do objeto interestelar

.Na busca por respostas, é essencial nos mantermos com os dois pés firmes no solo da ciência, que nos previne contra os mercadores da dúvida, os caçadores de cliques e os charlatães descarados
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Romário Fernandes

Romário Fernandes é professor de astronomia no Colégio Militar do Corpo de Bombeiros do Ceará e editor do canal Astro...

Não sei você, mas tem horas em que me sinto sufocado pela quantidade de notícias sobre o cometa 3I/ATLAS que circulam por toda parte nas últimas semanas. Fala-se que é um objeto interestelar que pode ter um formato peculiar, que muda de velocidade, que muda de cor e que, por tudo isso, poderia ser uma nave alienígena. Já apareceu astrofísico levantando essa bola... Mas tem alguma fundamentação nisso?

Receio que não. Como diria Carl Sagan, alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias. Por tudo o que sabemos até hoje, nunca tivemos contato com artefatos tecnológicos sem origem humana. É perfeitamente possível que eles existam. Arriscaria dizer até que é provável sua existência. Mas até hoje jamais nos deparamos com um único fragmento de objeto desse tipo. Qualquer alegação que quisesse associar um objeto perfeitamente observável, passando pela nossa vizinhança, a uma origem alienígena teria que estar assentada em um conjunto robusto de evidências. Definitivamente não é o caso.

O 3I/ATLAS tem nome, cara e jeito de cometa. É verdade que a sua órbita é diferente da esmagadora maioria dos cometas que já estudamos. Ela tem um formato impossível para objetos que transitam dentro do Sistema Solar. Logo, a evidência indica tão somente que se trata de um objeto que não vem daqui. Um "visitante interestelar", tal qual outros dois objetos foram reconhecidos nos últimos anos.

Trata-se de algo um tanto incomum, mas nem remotamente impossível. A complexa dinâmica orbital entre os objetos que compõem o sistema em torno de uma estrela permite facilmente a ejeção de alguns objetos para fora do domínio gravitacional da estrela. Nesse jogo de empurra, o objeto lançado de um sistema pode acabar transitando por outros, como o nosso.

Porém, como todo bom cometa, após um rasante nas proximidades do nosso Astro-Rei, esse objeto tende a se afastar - nesse caso, não só para longe do Sol, mas para fora do sistema novamente, alçando voos pelo espaço interestelar em busca de um novo sistema que o acolha temporariamente.

A verdade é que por trás do tsunami de publicações em circulação sobre o objeto interestelar repousa uma insaciável curiosidade sobre a nossa posição no universo. Estaremos a sós nessa imensidão cósmica? Se não, onde estão nossos vizinhos? Será que não podem ou simplesmente não querem entrar em contato conosco?

Na busca por essas respostas, é essencial nos mantermos com os dois pés firmes no solo da ciência. No mais das vezes, é um chão duro, pouco empolgante e um tanto indecifrável. No entanto, na quase totalidade das vezes, é aquele que melhor nos previne contra os mercadores da dúvida, os caçadores de cliques e os charlatães descarados.

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