Arthur Nestrovski e Márcio Seligmann-Silva são organizadores do livro "Catástrofe e Representação", coletânea de ensaios e de escritos ficcionais. De sua leitura fiz reflexões sobre os tempos (ainda) insólitos que testemunhamos.
Nestrovski e Seligmann-Silva escrevem que "a representação depende de uma catástrofe (sem catástrofe, não há o que representar), mas a catástrofe dificulta, ou impede a representação". Para além da literatura, essa afirmação se estende a outros campos do conhecimento, como a política e o direito, porque quase tudo é feito a partir da formação de significados. A traição desses significados - a catástrofe - constitui um óbice à representação e gera novos significados a aperfeiçoar essa representação. Sófocles já nos revelou isso em "Antígona" e a deusa Palas Atena, ao instituir o tribunal do Areópago, aperfeiçoa essa representação, comunicada por Ésquilo, acerca da passagem da vingança privada para a justiça com base na lei pública, sob a condição de que os cidadãos a cumpram. Semelhante ideia se encontrará em Jean-Jacques Rousseau - "Do contrato social". Logo, para reconhecer as contingências traumáticas da experiência é preciso compreender o "experienciado" pelo outro sem trair a natureza do vivido e sua distorção gradual, à distância do tempo. Mas que bom futuro pode ser quando não há leitores nem intérpretes nem testemunhas autênticas dos acontecimentos memoriados? A catástrofe! Então, o que foi ou continua a ser a representação da catástrofe passa a ser a catástrofe da representação. É quando somos assaltados pela negação-relativização da catástrofe que se tornará a catástrofe da simulação da realidade. Diante disso, sejamos nós, pois, testemunhas, leitores e intérpretes levados a não tarde encontrar o "deserto do real" de que nos adverte Slavoj Žižek para que possamos reconsiderar as nossas escolhas e afastar-nos das ilusões catastróficas da representação.