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Germana Belchior: Quando o trabalho deixa de fazer sentido
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Opinião

Germana Belchior: Quando o trabalho deixa de fazer sentido

É um adoecimento perigoso por ser silencioso. Ele não explode; corrói. Vai minando o engajamento, a criatividade e o compromisso com o servir, podendo evoluir para ansiedade, depressão e crises de identidade profissional
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Germana Belchior. Pós-doutorado em Direito pelo Uniceub. Doutora em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). (Foto: Arquivo Pessoal)
Foto: Arquivo Pessoal Germana Belchior. Pós-doutorado em Direito pelo Uniceub. Doutora em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Durante muito tempo, o adoecimento no trabalho foi associado quase exclusivamente ao excesso: pressão constante, metas inalcançáveis, jornadas extenuantes. O burnout ganhou nome, visibilidade e reconhecimento social. No entanto, há um outro fenômeno, mais silencioso e igualmente nocivo, que ainda recebe pouca atenção: o boreout.

Diferentemente do burnout, o boreout não nasce do excesso, mas da ausência. É o esgotamento provocado pela falta de sentido, de estímulo e de pertencimento. Surge quando o trabalho deixa de mobilizar e passa a ser apenas ocupação do tempo e fonte de renda.

Vivemos um paradoxo: nunca se falou tanto em produtividade, performance e resultados, mas cresce o número de pessoas profundamente desconectadas do que fazem. Profissionais que cumprem tarefas e entregam demandas, mas não compreendem o impacto do próprio trabalho. Esse esvaziamento se manifesta como apatia, desmotivação, tédio persistente e sensação de estagnação.

No serviço público, esse fenômeno é ainda mais sensível, pois estruturas rígidas, burocracia excessiva e baixa autonomia afastam o servidor do impacto social do seu trabalho. Soma-se a isso o fato de que muitas pessoas ingressam no serviço público movidas apenas pela busca de estabilidade, status ou remuneração, sem qualquer conexão com o sentido de servir. Quando o vínculo entre a atividade e o cidadão se perde, o trabalho deixa de ser missão e passa a ser apenas rotina.

Esse adoecimento é perigoso justamente por ser silencioso. Ele não explode; corrói. Vai minando o engajamento, a criatividade e o compromisso com o servir, podendo evoluir para ansiedade, depressão e crises de identidade profissional.

Falar de boreout é falar de propósito. Não como slogan ou discurso motivacional, mas como sentido concreto: saber por que se faz, para quem se faz e que transformação o trabalho gera. Nem toda exaustão é física. Muitas vezes, o que esgota é a falta de significado. Trabalho sem propósito não cansa o corpo; esvazia a alma.

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