O principal problema da operação militar dos Estados Unidos na Venezuela não está no conteúdo das justificativas: combate ao narcotráfico, defesa da democracia ou interesses estratégicos. Mas nos efeitos sobre o continente, no potencial desestabilizador para a América Latina.
A análise dessas motivações revela contradições evidentes. Em relação ao narcotráfico, o governo americano não apresentou provas consistentes e recuou na acusação sobre o suposto “Cartel de los Soles”. A Venezuela não tem papel central no tráfico internacional de drogas, sobretudo quando comparada à Colômbia e ao México. A incoerência se acentua ao se recordar o perdão concedido pelo governo Trump ao ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, condenado justamente por tráfico.
Se o argumento central fosse a defesa da democracia, as incoerências não seriam menores. Nicolás Maduro foi capturado e substituído pela sua vice-presidente Delcy Rodríguez, sem perspectiva de convocação de novas eleições. Os EUA devem tutelar o governo até que haja “estabilidade” para um regime de transição, ferindo frontalmente o princípio da autodeterminação dos povos. O discurso democrático também contrasta com a manutenção de relações estreitas com o regime autoritário da Arábia Saudita.
O petróleo aparece assumidamente como o conteúdo prioritário do governo Trump, transformando as demais narrativas em justificativas ideológicas, destinadas a suavizar os efeitos de uma ação injustificável. O acesso preferencial às maiores reservas estimadas do mundo tem possibilidade de contribuir para reduzir a inflação nos Estados Unidos e de reforçar sua segurança energética.
Esse movimento se insere em um quadro mais amplo, a nova doutrina de segurança dos Estados Unidos, marcada pela ideia de “paz pela força”. Trata-se de uma concepção que naturaliza o uso preventivo e unilateral do poder militar como instrumento legítimo de ordenamento internacional. Nesse contexto, a Venezuela surge não apenas como um problema pontual, mas como parte de uma reafirmação da hegemonia estadunidense.
Sob qualquer ponto de vista, a ação promovida pelos Estados Unidos abre precedentes graves. Os Estados Unidos aceitariam que os governos de Rússia e de China adotassem postura semelhante em relação aos mandatários da Ucrânia e de Taiwan?
O problema maior da operação dos Estados Unidos na Venezuela não reside no conteúdo das justificativas apresentadas, mas em seu alcance continental. Ao combater uma autocracia por meio de instrumentos autoritários, os EUA contribuem, mais uma vez, para enfraquecer a ideia de democracia, desestabilizar a América Latina, desacreditar as organizações internacionais e tornar o mundo ainda mais inseguro.