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Maduro preso: lógica histórica da intervenção
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Opinião

Maduro preso: lógica histórica da intervenção

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Sidney Ferreira Leite. Doutor em Relações Internacionais (USP). (Foto: Arquivo Pessoal)
Foto: Arquivo Pessoal Sidney Ferreira Leite. Doutor em Relações Internacionais (USP).

A prisão do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, após uma operação militar executada pelas forças dos Estados Unidos em Caracas, reacende um debate histórico sobre a política externa de Washington. Existe um padrão recorrente nas ações internacionais dos EUA, em que intervenções são legitimadas por discursos de autodefesa, promoção da democracia, estabilidade regional ou proteção de interesses econômicos, isto é, uma forma moderna de imperialismo.

Ao longo dos séculos XIX, XX e XXI, essa prática repetiu-se em diferentes contextos: desde a Doutrina Monroe, que buscava consolidar a influência norte-americana nas Américas, até as intervenções na América Latina e Caribe, o engajamento global durante a Guerra Fria e a "guerra ao terror" após os ataques de 11 de setembro de 2001. Nesses casos, observa-se uma sequência padronizada: a) construção de uma ameaça real ou potencial aos interesses dos EUA; b) formulação de uma justificativa moral ou jurídica, frequentemente ancorada no combate ao autoritarismo, ao terrorismo, ao comunismo ou ao narcotráfico; c) intervenção direta ou indireta; e, por fim, d) reorganização política ou econômica do espaço afetado alinhada aos objetivos estratégicos norte-americanos.

No episódio em questão, o governo dos EUA acusou Maduro de liderar uma rede internacional de narcoterrorismo, justificando o emprego da força militar e a operação que resultou em sua captura. A ação incluiu ataques aéreos e incursões de forças especiais em Caracas, seguida do transporte de Maduro e de sua esposa para os Estados Unidos, onde deverão responder a acusações federais.

A retirada forçada de um chefe de Estado soberano gerou condenações de governos e organismos internacionais, que denunciaram a violação da soberania venezuelana e do direito internacional, alertando para os riscos de se normalizar intervenções unilaterais sob pretextos de segurança ou combate ao crime. Ao mesmo tempo, setores políticos e partes da sociedade internacional saudaram a ação como um golpe contra a corrupção e a repressão, defendendo que ela poderia abrir caminho para uma transição democrática. Esse contraste de reações evidencia como as justificativas diplomáticas e morais para intervenções, presentes na história da política externa dos EUA, continuam a gerar controvérsias sobre seus objetivos e implicações geopolítica.

A análise histórica sugere que mais do que episódios isolados, as intervenções norte-americanas fazem parte de uma lógica contínua de atuação internacional. Com discursos adaptados a cada contexto, os Estados Unidos têm buscado manter sua influência global, combinando retórica moral e interesses estratégicos.

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