As recentes tensões entre Estados Unidos e Venezuela voltaram a expor um traço persistente do debate político brasileiro: a leitura quase imediata dos acontecimentos internacionais a partir de lentes ideológicas internas.
A disputa entre Washington e Caracas, marcada por acusações de autoritarismo, sanções econômicas e pressões diplomáticas, transformou-se em um espelho no qual tanto a esquerda quanto a direita nacionais projetaram suas convicções, identidades e ressentimentos políticos. Mais do que compreender o que estava em jogo do ponto de vista geopolítico, o debate brasileiro converteu-se em um palco de reafirmação de posições previamente consolidadas.
A esquerda brasileira reagiu com críticas contundentes à ingerência norte-americana, denunciando a violação dos princípios da soberania e da não intervenção - pilares do direito internacional desde a fundação das Nações Unidas. Para muitos setores progressistas, a ofensiva dos Estados Unidos contra o governo de Nicolás Maduro representaria mais um capítulo da lógica imperialista que, ao longo do século XX, sustentou golpes, bloqueios e intervenções em nome de uma suposta defesa da democracia. Nessa perspectiva, o foco da análise não deveria recair prioritariamente sobre as falhas internas do regime venezuelano, mas sobre a ameaça à legalidade internacional e aos princípios da autodeterminação dos povos.
Em sentido oposto, a direita brasileira acolheu o endurecimento da postura norte-americana como um alívio diante do que considera o esgotamento de uma "ditadura socialista" conduzida de forma autoritária por Nicolás Maduro. A narrativa predominante nesse campo político enfatizou o colapso econômico e a crise humanitária venezuelana como evidência do fracasso de um projeto de poder baseado no controle estatal excessivo e na proximidade com regimes igualmente autoritários, como Cuba ou Rússia. Sob essa ótica, a pressão exercida por Washington teria o mérito de isolar um modelo político visto como anacrônico e de abrir caminho para a restauração das liberdades políticas.
No entanto, como advertiu o filósofo espanhol José Ortega y Gasset, "ser de esquerda ou de direita é uma das infinitas maneiras que o homem pode eleger para ser um imbecil: ambas, na verdade, são formas de hemiplegia moral". A frase, tão provocadora quanto atual, sugere que reduzir disputas internacionais complexas a esquemas binários empobrece o pensamento e limita a compreensão da realidade. Questões dessa natureza envolvem estratégias de poder, redes comerciais, disputas energéticas e interesses estatais que raramente se alinham de maneira pura a valores ideológicos.
Em tempos de polarização extrema, compreender o mundo exige mais do que escolher um lado: exige a capacidade de pensar para além dos rótulos. Como observou Norberto Bobbio em Esquerda e Direita (1994), "a realidade é sempre mais complexa do que nossos esquemas". É justamente nessa complexidade - frequentemente ignorada pelo debate público - que reside a verdadeira inteligência política.