Quem teria inventado o amor?
Teria sido uma mulher de sabedoria transbordante, íntima do encanto e da espiritualidade, que aprendeu a edificar-se sem jamais se conter?
Ou teria sido uma invenção da própria divindade — deliberadamente inacabada — para que a paixão permanecesse acesa, sem nunca se satisfazer plenamente, mesmo na presença do outro?
Quem inventou o amor?
Um sábio inquieto, talvez irônico, que lançou sobre o humano a experiência do afeto para mantê-lo sempre à beira do risco, da insegurança e do desejo que vigia a si mesmo e ao outro?
Quem inventou o amor?
Um curioso incapaz de medir a ousadia da travessia de si no território afetivo alheio, onde os detalhes se ampliam pelo discernimento e tornam decisivo aquilo que, à primeira vista, parecia irrelevante?
Quem inventou o amor?
Alguém que ignorava a fragilidade dos encontros ou que, conhecendo-a profundamente, a assumiu como condição inevitável do ser — quase sacramental?
Quem sabe o amor não tenha sido propriamente inventado em suas razões controversas. Talvez tenha apenas irrompido como uma possibilidade suspensa entre o medo de perder e a coragem de permanecer e, nesse intervalo incerto, tenha encontrado sua forma de existir.
E se ninguém o inventou tal como o concebemos em seus pormenores, talvez caiba a cada encontro reinventá-lo em intensidade e profundidade: não como algo qualquer, mas como uma graça exagerada que insiste, dia após dia, em tocar o corpo com responsabilidade e em conquistar a alma por meio de uma afetividade permanentemente consciente.
E, por fim, como uma verdade em que se acredita —, a tudo isso se chame amor: algo que dispensa acréscimos de ousadia, porque já é, por si só, grandioso; uma essência em constante travessia dentro de si mesma, simplesmente fazendo acontecer.