Quando Donald Trump voltou a defender a ideia de anexar a Groenlândia, muitos trataram o episódio como excentricidade ou provocação retórica. O equívoco está justamente aí. A proposta revela uma concepção de poder ultrapassada, que tenta enfrentar os dilemas do século XXI com instrumentos políticos do século XIX.
É inegável que a Groenlândia ganhou centralidade estratégica. O avanço do degelo no Ártico abriu novas rotas marítimas capazes de reduzir tempo e custos do comércio entre Ásia, Europa e América do Norte. Soma-se a isso a existência de terras raras e minerais críticos, indispensáveis à transição energética, à indústria tecnológica e ao setor de defesa. Do ponto de vista militar, a posição geográfica da ilha continua sendo peça-chave para sistemas de vigilância no hemisfério norte. Trump percebeu esse novo tabuleiro. O erro está na forma como pretende jogá-lo.
A ideia de anexação ignora princípios elementares do direito internacional, como a autodeterminação dos povos, e despreza alianças históricas. A Groenlândia possui população própria, identidade cultural definida e autonomia política vinculada à Dinamarca, aliada tradicional dos Estados Unidos e integrante da OTAN. Insistir em uma incorporação forçada não representa força estratégica, mas arrogância diplomática.
Trump parece tratar a geopolítica como se fosse uma negociação imobiliária. Como se territórios pudessem ser comprados, vendidos ou incorporados a partir de uma lógica empresarial simplificada. Aplicada às relações internacionais, essa mentalidade é perigosa. O custo diplomático seria imediato. Os Estados Unidos perderiam credibilidade junto a aliados europeus, reforçariam a percepção de seletividade na defesa das regras internacionais e ofereceriam discurso pronto para adversários como Rússia e China.
Há também o custo material, frequentemente subestimado. Integrar a Groenlândia significaria assumir investimentos bilionários em infraestrutura, saúde, educação e adaptação climática. Não se trata de um território pronto para gerar retorno imediato, mas de um compromisso caro, duradouro e politicamente impopular, especialmente em um país que enfrenta desigualdade social e pressão fiscal.
O ponto mais sensível, contudo, está no precedente. Se os Estados Unidos normalizam a anexação territorial por conveniência estratégica, com que autoridade moral condenarão iniciativas semelhantes em outras regiões do mundo? A liderança internacional se esvazia quando a força tenta substituir a diplomacia.
No fim, o gelo da Groenlândia pode esconder riquezas e rotas promissoras. O que a proposta de Trump expõe, porém, é o risco de derretimento da própria liderança americana quando o poder abandona as regras que diz defender.