A chegada de 2026 me fez perceber como os últimos cinco anos foram felizes. Quando (quase) todos foram embora após minha mãe adoecer, elas surgiram. E o mais importante: permaneceram. Com respeito, alegrias e acolhimento. Me ofereceram humanidade. Elas, as travestis.
A primeira foi Dediane Souza. Uma grande, como logo aprendi. Com quem dividi os medos de um mestrado e ousei um doutorado. Uma sertaneja que me mostrou haver o momento de ter força para destruir e a hora de ser sutil para infiltrar. Dedi me inspira a ser água.
Labelle Rainbow veio em seguida. Com cabelão armado, paetês e leque a tiracolo. Sempre colorida. Disposta às felicidades e às festas sob o caramanchão do meu quintal. Inimiga do fim. Com ela, lembro de não esquecer de mim. Belle me inspira a sorrir.
Dáry Bezerra chegou com um cargo. À frente da ONG Grab, me deu liberdade para ser quem quisesse à frente da comunicação da segunda maior parada LGBT do Brasil. Acreditou em mim. Foi quem primeiro me disse: “você é grande”. E me inspirou a sonhar.
Fran Costa cruzou meu caminho pelo trabalho. É meu oposto complementar. Branca, magra e fitness. Uma figura de retidão admirável. Do bem. Que me faz ser rocha em mar bravio.
Patrícia Alves da Costa, Patrícia Dawson ou simplesmente Patrícia, minha gêmea de alma negra no amor por Salvador, esteve na minha infância sem eu saber e me reencontrou pela arte, anos depois. Me lembra que o amanhã é hoje.
Renata Sampaio também me foi apresentada pelo movimento social. Cria do Moura Brasil, onde pinotei quando criança, ela se reinventa pra sobreviver. Foi quem me disse: “quando se sentir só, grite”. E, assim, me tornei resiliente.
Elas são muito mais do que o estereótipo perverso da promiscuidade, ao qual a sociedade tenta reduzi-las. Sendo o Brasil o país que mais mata travestis há 16 anos consecutivos, tê-las ao meu lado é uma reivindicação de futuro. Como todas têm mais de 35 anos, já superaram a expectativa de vida média para pessoas trans. Ou seja: estarem vivas é a maior das vinganças.
Por isso, hoje, Dia da Visibilidade Trans, faço questão de dizer: “Dedi, Belle, Dáry, Fran, Paty, Renatinha, Amanda Félix, Viviane Venâncio, Ana Flávia Sampaio e todas as travestis da minha vida, EU AMO VOCÊS”. Mas vou além: e você, leitor, quantas travestis conhece? Quantas já apresentou à família? Com quantas se permite conviver?