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Alisson Maia: A retirada da baliza e os riscos à formação de condutores
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Opinião

Alisson Maia: A retirada da baliza e os riscos à formação de condutores

Com a recente flexibilização do número de aulas obrigatórias, reduzidas drasticamente, a avaliação prática passa a ser a principal, e em muitos casos a única, barreira entre o processo de formação e a inserção do condutor no trânsito real
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Alisson Maia. Vice-presidente do Sindicato das Autoescolas do Ceará. (Foto: Arquivo Pessoal)
Foto: Arquivo Pessoal Alisson Maia. Vice-presidente do Sindicato das Autoescolas do Ceará.

A decisão de retirar o teste da baliza do exame prático da Carteira Nacional de Habilitação tem sido justificada pela ideia de que, com a evolução dos anos e a modernização dos veículos, essa avaliação deixaria de ser necessária. No entanto, essa leitura ignora a realidade de grande parte dos condutores brasileiros e levanta preocupações relevantes sobre a qualidade da formação no trânsito.

Nem todos possuem veículo próprio, tampouco acesso a carros modernos ou com tecnologia embarcada. A formação do condutor precisa considerar o cenário real das ruas e das condições de aprendizado, onde o domínio do veículo ainda depende, essencialmente, da prática, da repetição e da avaliação técnica. É justamente por meio dessas avaliações que se verifica se o candidato realmente desenvolveu as habilidades necessárias para conduzir com segurança.

A baliza não é um fim em si mesma, mas parte de um conjunto de competências fundamentais. Manobras como controle em ladeira, estacionamento, ultrapassagem segura, uso correto da sinalização, aplicação das normas de direção defensiva e conhecimento da legislação de trânsito deveriam ser critérios centrais no exame prático.

Com a recente flexibilização do número de aulas obrigatórias, reduzidas drasticamente, a avaliação prática passa a ser a principal, e em muitos casos a única, barreira entre o processo de formação e a inserção do condutor no trânsito real.

Retirar etapas avaliativas sem oferecer mecanismos equivalentes de verificação do aprendizado fragiliza esse processo. O risco é habilitar condutores que não tiveram tempo nem exigência suficientes para consolidar práticas básicas, transferindo esse aprendizado para o cotidiano das vias, onde erros têm consequências reais.

O Brasil já convive com números alarmantes de mais de 37 mil mortes no trânsito por ano, além de um recente e preocupante aumento de óbitos na região Nordeste. Qualquer medida que enfraqueça a educação para o trânsito, a fiscalização ou os critérios de avaliação técnica vai na contramão dos esforços necessários para reduzir esses índices.

Modernizar é importante, mas a segurança viária exige rigor, responsabilidade e compromisso com a formação adequada de quem estará ao volante.

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