Em março de 2008 escrevi, no jornal O POVO, o artigo “O Abraço do Dragão”. Nas Páginas Azuis (07/jul/08), disse, literalmente, para delírio dos incautos da velha indústria, “que havia algo melhor que a refinaria”.
A provocação era óbvia: o Ceará podia jogar, à época, o jogo da TIC mundial, baseado em desenvolvimento de software, outsourcing e indústrias criativas, disputando um espaço dominado pela Índia com seu binômio fatal: matemática e inglês. A equação era didática: educação + tecnologia + ecossistema + vontade política. Ou se fazia isso, ou se assistia a história esfriar o fogo do Dragão Digital.
Spoiler local: fingimos que era barulho de mar ...
Duas décadas depois, o Dragão retorna, mas com nova gramática. Sai o software, entra a IA Generativa (essa do ChatGPT). Bancos de Dados, como infraestrutura lógica, cedem lugar a data centers como infraestrutura crítica. A economia da computação passa a conjugar energia, território e poder. E lá está o Ceará, novamente diante do inesperado: data centers vorazes por energia e água, como folião do “Simpatizo Amor de Bloco”.
A pergunta que não quer calar é simples: como o Ceará pretende se posicionar nessa nova economia da IA? O vetor não é só “instalar data center”, mas habilitar uma cadeia industrial e territorial que a energia renovável pode ancorar.
A pergunta que não quer chatear também é simples: o que outros estados fariam se tivessem nosso “berço esplêndido” de energia renovável abundante no período paleolítico da IA, quando datacenters ainda são dinossauros famintos por “Conefor” e “quartinha”?
A diferença face ao Dragão de 2008 é decisiva: desta vez, o aviso não caiu no vazio. A proposta “Datacenters de IA no Ceará”, capitaneada pelo Iracema Digital com universidades e entidades de TIC, deslocou o debate do tecnicismo para o campo que define governança, regulação e política pública.
A resposta não tardou. O Governo do Ceará iniciou a readequação da política de CT&I ao novo ciclo da computação intensiva, abrindo uma janela rara de convergência contemplando governança e desenvolvimento sustentável. Monta-se um ecossistema de IA capaz de reposicionar o Estado como referência no Nordeste ... e talvez no país.
O desafio agora é negociar contrapartidas ambientais, sociais e tecnológicas e escapar do velho roteiro colonial do “entra o megainvestimento, sai o valor, fica o PowerPoint”. Datacenter não é só Capex e isenção. Deve ser também inovação e soberania.
Ao arquitetar um novo Ecossistema de IA, Governo e a sociedade cearense inauguram uma nova inteligência que não imita o mundo, mas o reescreve.
Um futuro riscado no Atlântico, um Atlântico da Inteligência.
Eita Dragão. Agora vai!